Crítica: Malala

Por Fernando Boechat
 
Direção: Davis Guggenheim
País: Estados Unidos da América
 O filme abre com uma animação em que é mostrada a Batalha de Maiwand, pertencente à Segunda Guerra Anglo-Afegã (1878-1880). Batalha na qual, segundo a lenda, a jovem Malalai altera seu rumo com um pronunciamento corajoso em que incentivava os afegãos que estavam deserdando, a voltar, dizendo que era preferível a morte no campo de batalha à vida após uma fuga covarde. A jovem de etnia pasthun (etnia de origem afegã e paquistanesa)  responsável  pela reviravolta na batalha e morta pelos ingleses é uma lenda que ecoa durante o filme.

 

O documentário é filmado de maneira bem tradicional, fazendo muito pouco uso de recursos estéticos que contribuam para a narrativa, salvo algumas outras animações, ao mesmo estilo da inicial, que narram alguns eventos importantes historicamente e principalmente da história de vida de dois grandes personagens: Malala Yousafzai e seu pai, Ziauddin Yousafzai. .

 

Apesar de ser um filme emocionante, a impressão que fica é a de que poderiam ter aproveitado melhor a potência crítica de ambos, pai e filha, duas figuras que esbanjam coragem e amor pela justiça e igualdade. A menina/mulher Malala é de fato um acontecimento político, isso fica claro ao entrar um pouco na cultura paquistanesa e no papel submisso relegado à mulher, principalmente após a chegada do Talibã em algumas regiões afastadas da capital, como o vilarejo de Swat, local de residência da família até o trágico evento em que um membro do Talibã a alveja na cabeça após suas declarações abertas na mídia, denunciando o grupo extremista e nomeando diversos de seus membros e descrevendo suas atrocidades.

 

A simples presença de Malala já é capaz de segurar o documentário, que se esforça para mostrar um lado pouco conhecido dela, sua vida pessoal. A garota, tímida quando questionada sobre sua sexualidade, namoros, romances… É a mesma que ergue sua voz contra as injustiças e que se posiciona firme em relação aos direitos das mulheres e a um ativismo que assegure a educação das crianças ao redor do mundo, jamais recuando ou se intimidando por opiniões contrárias.

 

Podemos nos lembrar de uma louvável frase de Thoreau, que afirma que “não é desejável cultivarmos pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito”. Esse estilo transgressor e rebelde só o é na medida em que existem leis e tradições perversas que ceifam o destino de milhões de vidas.

 

Em certo momento ela diz levar uma vida sagrada. Devemos estar atentos de que isto não ocorre por qualquer caráter religioso, mas sim por uma vida dedicada ao amor e ao cuidado ao próximo. A força de sua palavra e de sua coragem só é comparável à doçura de seu coração, capaz de perdoar e responder sorrindo que não guarda nenhuma raiva de seus agressores.

 

★★★★☆

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