Crítica: As Memórias de Marnie

Por Leonardo Carvalho

Japão – 2015

Direção: Hiromasa Yonebayashi.
Elenco: Nanako Matsushima, Susumu Terajima, Toshie Negishi.

 

Crianças brincando, rindo e se divertindo estão no primeiro plano de “Memórias de Marnie”, a aposta do Studio Ghibli em 2016 para uma vaga no Oscar. Depois de vários meninos e meninas terem sido mostrados, o narrador chega próximo de Anna, uma menina que, já em sua primeira aparição, aparenta ser muito tímida – fica evidente em sua voz over e em seu isolamento, pois está sentada num banco com seu caderno de desenho, em que uma pessoa pede para ver o seu trabalho, mas logo ela rejeita, com a desculpa de que ainda não estava pronto.

Essa desculpa é usada o tempo todo pela menina, que mostra um grau muito alto de timidez. Isso pode ser percebido também nas inúmeras vezes em que sua bochecha é destacada por uma pequena vermelhidão quando alguém fala com ela, além de uma cena em que uma outra garota comenta em voz alta com uma interlocutora que iria colocar uma carta na caixa de correio. Anna estava em frente a essa caixa e, após ouvir isso, se afasta para que não possa ser vista.
Com uma crise de bronquite e por causa de outros problemas internos, os tios da menina, chamados assim por ela, mas na verdade são pais adotivos, mandam Anna para o interior – primeira virada -, para um local calmo, onde o ar é mais limpo, na casa de outros tios. O objetivo é que ela possa passar um tempo longe da agitação do centro urbano, como se fossem férias para poder relaxar e melhorar dos seus problemas. Ela é muito bem recebida por Setsu e Kiyomasa, deixando-a confortável naquele lugar ameno. A tranquilidade é marcada por uma trilha musical ligeiramente melancólica, que deixa transparente também o sentimentalismo da menina, e a direção de arte, excelente, também constrói o ambiente leve.
Explorando o novo lugar, Anna descobre uma enorme casa localizada num pântano. Para expressar seu isolamento e sua impressão sobre a mansão, a menina fala consigo mesma – “Que casa enorme!”, por exemplo – o que é prejudicial por descrever o que está pensando quando os enquadramentos já faziam isso, com planos mais abertos sobre o local e mais fechados em suas expressões. Nesse casarão ela conhece Marnie, a provável moradora, um tanto misteriosa sobre sua vida e sobre a sua pessoa, tanto o espectador quanto a personagem Anna ficam desconfiados de quem poderia ser Marnie. Há algumas possibilidades para tentar se descobrir, mas só no final mesmo há a revelação.
Marnie e Anna viram grandes amigas, divertem-se juntas e contam histórias umas às outras. Anna parece ter melhorado sua bronquite e até mesmo sua timidez, pois perto de Marnie ela consegue ser extrovertida e comunicativa. A única preocupação  dela é saber quem é a garota de quem tanto gostou.
A narrativa cria um suspense curioso sobre isso e cativa o espectador. No momento da revelação, porém, há um grande problema na explicação. Através de cortes alternados entre uma explicação de uma pintora que Anna conheceu por lá e por inserts, que são pequenos flashbacks, é possível compreender quem é Marnie e perceber a visão de Anna sobre a menina – a figura perfeita. Até aí tudo bem, já que só é possível entender através disso, mas depois, quando sua mãe adotiva chega na pequena cidade para buscá-la, há uma outra explicação feita por ela quando entrega uma fotografia antiga do casarão. Acontece uma redundância desnecessária nesse momento, prejudicando a obra.
Ainda sobre alguns pontos negativos, é preciso falar que a história discute alguns pontos sobre o isolamento de uma criança, assim como discute aspectos da adoção, em relação ao “ser mãe e ser pai”, em relação aos “pais verdadeiros”. O moralismo é muito destacado e de maneira ligeiramente forçada, tirando a fluência e a espontaneidade da narrativa.
Mesmo com alguns elementos fracos e prejudiciais, “As Memórias de Marnie” é um bonito filme, que atinge com sua proposta. Na corrida pelo Oscar, pode ser que consiga uma vaga dependendo dos concorrentes, mas por não passar de um bom longa-metragem de animação, dificilmente conseguirá uma vaga na categoria.
★★★★★★★☆☆☆ – Nota: 7

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