Crítica: Beira-Mar

Por Leonardo CarvalhoDireção: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon

Elenco: Mateus Almada, Elisa Brites, Maurício José Barcellos.

 

Na história de “Beira-Mar”, Martin e seu amigo Tomaz viajam para o interior do Rio Grande do Sul, pois Martin precisa encontrar um documento na casa de parentes que não visita há bastante tempo. Ambos acabam tendo novas relações de amizade e momentos em que descobertas no ápice da adolescência virão à tona.
O filme traz um tipo de molde encontrado, por exemplo, em “Casa Grande”, com a mesma intenção de causar naturalidade, mas menos sofisticado. Traz também um estilo muito parecido com “Hoje eu Quero Voltar Sozinho”. “Beira-Mar”, como este, não precisa trazer imagens com cores vibrantes e músicas que deixem os espectadores de olhos abertos para mostrar o lado adolescente, mas muito pelo ao contrário, precisa compor na sua identidade cores neutras para mostrar as dúvidas comuns da juventude, que mexem com o psicológico dos personagens, e um som leve quase isolado de uma gaita.
Mesmo assim, essa tentativa de naturalidade não é fixada de maneira perfeita em algumas camadas técnicas. Nas atuações isso fica perceptível no começo da obra, tal como os diálogos, ambos são pouco espontâneos pela razão de explicar o motivo do deslocamento dos personagens principais e suas características, pois a explicação ocorre de uma maneira que acaba truncando o que deveria ser tratado com o decorrer da história. Ao longo da obra, no entanto, a naturalidade vai ganhando um espaço mais rico por uma melhora nos dois aspectos: os diálogos já não aparecem tão explicativos, as atuações passam a combinar com a proposta.
Dentre os pontos positivos, além das cores neutras e a trilha musical, já falados, é a escolha dos planos e do modo de filmagem. Graças a uma direção sensível, a câmera na mão é acionada para construir uma paisagem de incertezas dos jovens, fugindo de estilos voltados ao tema muitas vezes feitos para a televisão ou para um tipo de cinema mais comercial. Os enquadramentos casam bem com a intenção de mostrar coisas que os jovens fazem, de acordo com a situação que estão passando. É preciso destacar algumas cenas da obra que trabalham em conjunto a sugestão e o modo como foram feitas.
A primeira delas é uma tentativa de humor, em que os dois personagens principais estão sentados um ao lado do outro no sofá e balançam um braço como se estivessem se masturbando. A câmera não mostra a imagem de maneira aberta, mas apenas os movimentos do braço e o corpo trêmulo. Depois, para causar surpresa, vemos que o movimento é causado realmente pela locomoção da mão, mas não em uma masturbação, mas pelos meninos apertarem de forma rápida o botão de um controle de videogame. A tentativa de humor não é muito bem sucedida, acaba sendo, na verdade, ultrapassada.
As outras duas são muito bem compostas. Uma delas é quando o menino conversa com um parente seu, que lembra de acontecimentos antigos enquanto corta um pedaço de madeira com um serrote. A agressividade do rapaz com o instrumento imprime seu desgosto com a atualidade e seus sentimentos sobre o passado – isso também é visto nas falas. A última cena que precisa ser comentada é o beijo entre dois personagens do gênero masculino, que destaca muito bem a sensualidade, as descobertas de um deles, e a afirmação da opção sexual por outro. Os planos próximos dos beijos e dos acariciamentos traduzem espontaneidade, o mesmo sobre a cena do serrote – esta possui um enquadramento mais fixo, bem escolhido para mostrar o ato de cortar ficar mais intenso.
Indicado em um prêmio para estreantes no Festival de Berlim, “Beira-mar” é mais um longa-metragem de 2015 que afirma uma nova era do cinema brasileiro, uma era mais madura e com muitas influências do cinema alternativo. Mesmo com alguns problemas falados acima, o filme agrada e pode ser colocado na boa leva de obras nacionais lançadas neste ano.
★★★★★★☆☆☆☆ – Nota: 6

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