Crítica: A Ilha do Milharal

Por Leonardo CarvalhoGeórgia – 2014
Direção: George Ovashvili.
Elenco: Ìlyas Salman, Mariam Buturishvili,
Irakli Samushia.

 

A introdução de “A Ilha do Milharal” é, sem
dúvidas, uma das mais interessantes do cinema nos últimos anos. A apresentação
do personagem e do que ele faz é feita sem diálogos, tanto que em mais ou menos
quinze minutos já sabemos que um senhor espera a chegada de certa época do ano
– isso é dito numa legenda que abre o filme – para que possa plantar em uma pequena ilha de milharal.
É muito interessante observar através dos cortes, da
lenta movimentação da câmera e de planos que estão sempre próximos do
personagem principal, o seu trabalho para construir meios em que possa usufruir
da plantação – o plano detalhe é utilizado para que sejam vistos reflexos do
trabalho, desde o ato de cavar até regar. Isso também faz com que o filme ganhe
uma calmaria. Os diálogos e a trilha musical também proporcionam uma
simplicidade na obra, um clima bem retratado do local onde a história se passa.
O clima de solidão e leveza começa a ser quebrado com a
chegada de alguns militares que ficam fazendo fiscalizações em torno de todo o território banhado por aquele
rio. Alguns barulhos de tiros são ouvidos pelo senhor e sua neta, que mostram
expressões de medo, mas ao mesmo tempo de bravura, pois aquela pequena casa
construída é o que eles têm para sobreviver.
A ausência de diálogos continua em boa parte da obra,
quando aparecem, a maioria é bem encaixado, com exceção de uma parte em que explicam que a
menina perdeu os pais, o que torna aquilo tudo muito forçado, sem necessidade.
De maneira exemplar, sem fugir às falas, vemos a casa crescer, depois o
milharal crescer, assim como a menina crescer – sabemos por sua menarca, o pendurar de sua boneca na parede e o começo por interesse com um homem
do exército que apareceu machucado na pequena ilha – e o cotidiano de ambos é
mostrado por suas ações de construção e plantação.
Há até um suspense na obra com a chegada desse rapaz à
ilha. Os militares que fazem a ronda do local o procuram por toda parte
enquanto ele está escondido na residência do senhor criador da plantação. A
chegada dos outros militares fazem com que haja um clima bem curto de tensão em
alguns trechos de uma obra que segue uma linha reta em calmaria.
O clímax é dramático e representa com fidelidade
acontecimentos de uma vida difícil, assim como é fiel ao tipo de cinema
realista, que não traz sempre um final feliz, mas um final reflexivo. A atuação de Ìlyas Salman neste momento é excelente, assim como os enquadramentos que
mostram a destruição.
“A Ilha do Milharal” é um trabalho cinematográfico que encena bem o cotidiano de alguns agricultores que vivem por esperar uma época do ano para ter o que comer. Desde
o silêncio em falas até o elenco espontâneo, o longa-metragem se mostra
cativante em todas as suas camadas e por isso é um dos melhores filmes lançados
em 2014, com justiça foi premiado em inúmeros festivais ao redor do mundo.
★★★★★★★★½☆ – Nota: 8,5

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *