Crítica: Sicario – Terra de Ninguém

Por Philippe Torres
Direção: Denis Villeneuve
País: EUA; Canadá
Elenco: Benício del Toro; Emily Blunt; Josh Brolin; Alan D. Purwin; Daniel Kaluuya; Dylan Kenin; Frank Powers; Jeffrey Donovan; Jon Bernthal; Julio Cedillo; Maximiliano Hernandéz; Raoul Trujillo; Sarah Minnich.

 

O canadense Denis Villeneuve tem demonstrado ser um dos diretores mais eficazes nos últimos anos. Eclético, o artista passeia por diversos gêneros com os quais, até agora, não tive decepção alguma. Incêndio, um drama político, Os Suspeitos, um suspense impressionante e O Homem Duplicado, uma adaptação da obra de Saramago que, para muitos, seria inadaptável. Sua capacidade por passear por estilos diferentes nos premia com sua mais nova obra: Sicario: Terra de Ninguém.
A história pareceria batida para aqueles que assistem filme por sua sinopse, seria apenas mais um sobre o narcotráfico. Ambientado na fronteira entre EUA e México – o que por si só já confere uma tensão geopolítica ampliada pelas tomadas aéreas que clareiam o muro – concentrando na agente do FBI Kate Macy (Blunt), líder de uma equipe que, como em qualquer guerra às drogas, busca libertar reféns das mãos dos traficantes. Durante uma de suas investigações algo inesperado acontece, fazendo com que aceite participar de uma força tarefa comandada pelo agente Matt (Brolin), com o qual se incomoda devido a seus métodos de ação e, em especial, a presença misteriosa e indesejável de Alejandro (Del Toro).
Emily Blunt encarna bem a personagem principal, como uma líder que comanda muito mais por uma tomada à dianteira do que ordens aos colegas, uma mulher forte, mas que demonstra uma tensão progressiva no rosto. Contudo, os conflitos que regem a narrativa, antes pertencentes a Blunt, passam a ser de Alejandro, o que torna a história muito mais interessante. Ora, Macy não sabe quem é este personagem e muito menos que força-tarefa está se metendo. Eis o conflito, o mistério a ser revelado personificado em Del Toro – que, aliás, seria muito estranho se sua presença não fosse marcada nas premiações de final de ano. Ao revelar se a identidade de Alejandro, a narrativa sofre uma reviravolta de main character. Dessa forma, a personagem de Blunt funciona como uma linha moralista na terra de ninguém.
Um filme de ação longe do convencional, Sicario busca mostrar histórias de pessoas comuns introduzidas, a principio, sem motivação alguma. Percebemos, contudo, o humanismo presente na visão de Villeneuve em apresenta-los. O espaço de conflito muito bem fotografado, demonstrando tensão geopolítica a partir de tomadas aéreas, o calor sufocante de uma superexposição da imagem, as cores frias nos momentos mais claustrofóbicos ou de tensão emocional, não é mascarado pela narrativa principal. O que vemos não é apenas a “história dos reis” – dos poderosos – mas de pessoas comuns.
É perceptível a capacidade técnica de Villeneuve ao construir momentos de tensão e cenas de ação. Convencional ao gênero, a supervelocidade da justaposição de planos invisíveis nos dão a ideia de movimento na maioria dos filmes, contudo, sempre exagerado. Aqui sabemos o que estamos assistindo. Inclusive, em alguns momentos, tomadas mais longas imprimem uma atmosfera de tensão, como na cena da fronteira. Outras passagens são marcantes por sua construção técnica e estética para o gênero. A cena dos túneis, por exemplo, demonstram um momento de conflito que, porém, não mostra o rosto do inimigo e diminui o espaço dos personagens. O filme demonstra que a ação pode fugir do clichê do abuso dos cortes. A trilha sonora é eficaz. Composta por Jóhann Johannson (A Teoria de Tudo), a musicalidade completa as cenas de ação sem tornar-se ditadora das tensões e sentidos, a música não diz as cenas, faz parte dela.
O longa de Denis Villeneuve busca trazer uma versão da perversa da guerra as drogas. Situado em uma grande região de tensões geopolíticas onde, a partir do senso comum, cria-se um inimigo do outro lado do muro, Sicario é uma narrativa que demonstra a enorme complexidade acerca do tema. Contudo, não há esquecimento das pessoas comuns que rodeiam o direcionamento que geralmente se dá aos poderosos. Dessa forma, percebe-se ao final uma generalização, uma banalização da violência. Em meio a tiros, a vida continua.
Crítica pertencente a cobertura do Festival do Rio 2015
★★★★★★★★½☆ – Nota: 8,5

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