Crítica: A Floresta que se Move

Por Leonardo Carvalho
Brasil – 2015
Direção: Vinícius Coimbra
Elenco: Ana Paula Arósio, Gabriel Braga Nunes, Nelson Xavier.

 

 

Baseado na peça clássica de Shakespeare, “MacBeth”, “A Floresta que se Move” chega aos cinemas como uma inspiração na centralidade da estrutura do texto inglês, mas com uma adaptação sobre a contemporaneidade. É possível encontrar frases e lemas da peça original no filme, sem que haja qualquer modificação, e ao mesmo tempo, há frases como a oralidade dos dias atuais, isto é, existe uma intenção fiel à peça e uma proposta de atingir o público.

Na história macabra, Elias é um empresário de um dos maiores bancos do Brasil. Um dia, ao chegar no trabalho com seu amigo, eles encontram uma vidente que diz que o destino de Elias mudará em dois dias: no primeiro ele se tornará o vice-presidente do banco, no segundo se tornará o presidente. O primeiro acontece naquela mesma hora. Ao chegar em casa, ele conta o acontecimento à sua esposa, Clara – como Lady MacBeth, que convida Heitor, o presidente do banco, para um jantar com a intenção de que o marido suba de cargo.
Um aspecto visual que ilustra muito bem a ira do filme, que em muitas partes se encontra exagerado, ou melhor, agressivo, é o sangue. Em diversas cenas ele é encontrado, como em um corte na mão, uma mancha no tapete, ou um banho de sangue num quarto, fora que a palavra “sangue” aparece em muitos diálogos. Outros aspectos que nem chegam a ser tão agressivos, mas são precisamente macabros, estão nas expressões dos atores e no figurino de Clara,
num vestido preto que cabe bem com a sua intenção de matar e sua ganância.
Como foi dito acima, a produção respeita muito o cinema como arte legítima. Isso é percebido na bela direção de Vinicius Coimbra, que deixa claro seu domínio sobre a linguagem cinematográfica em relação às escolhas do plano, sobre a movimentação da câmera, e até mesmo sobre a montagem, feita por ele mesmo, que organiza o filme em um ritmo que prende o espectador.
Ainda sobre isso, sobre essa questão de respeito à arte, o longa-metragem respeita a própria peça. Esse respeito se dá como uma responsabilidade para que não só o texto ganhe com isso, mas também o elenco, com seus exageros nos gestos, nos gritos, que lembra as tragédias clássicas. O que lembra também a peça em alguns momentos, é a trilha musical, não pela razão de que existiu uma trilha nas encenações, mas, como na cena de abertura o violino rasga o silêncio, isso lembra uma classe clássica, uma elegância nobre. Em contrapartida, todos esses elementos também compõem um clima voltado ao público. É possível perceber já de cara na linguagem utilizada, nos efeitos visuais, como na cena em que há um banho de sangue nos protagonistas – ao mesmo tempo poético e Gore – e na própria trilha musical, que aciona arranjos sombrios para provocar tensão.
Esse envolver o público também tem a ver com o tipo de distribuição, assinado pela Globo Filmes, que precisa manter o público como o principal alvo. Não é por menos que, algumas vezes, lembramos um pouco da linguagem das séries da própria emissora e até de novelas, principalmente pelos cortes bruscos em que há uma pausa para o espectador respirar.
“A Floresta que se Move” é recheada de aspectos poéticos, como a própria floresta se movendo pelas formigas, e falas da peça clássica que são utilizadas para chocar, o homem que não nasceu na mão de uma mulher, por exemplo, esses aspectos enriquecem a obra devido à sua proposta dupla. O longa-metragem não faz feio no seu caldeirão de gêneros, desde o realismo ao espiritualismo, desde o horror às cenas engraçadas.

 

★★★★★★★½☆☆ – Nota: 7,5

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