Crítica: Perdido em Marte

Por Philippe Torres
Direção: Ridley
Scott
Elenco: Matt
Damon; Jessica Chastain; Chiwetel Ejiofor; Kate Mara; Sean Bean; Jeff Daniels; Eddy Ko; Michael Peña; Aksel Hennie; Donald Glover; Kristen Wiig; Sebastian Stan; Mackenzie Davis
Particularmente tenho grande admiração pela capacidade técnica de Ridley Scott (Blade Runner – O Caçador de Androides), diretor do filme em questão. Contudo, é notável que sua capacidade técnica não tenha se revertido em boas narrativas nos últimos anos. Filmes como Robin Wood e Prometheus são um desastre absoluto. Entretanto, Perdido em Marte apresenta-se de forma competente, longe da qualidade de seus grandes clássicos, mas importante à medida que faz o diretor voltar a respirar no cenário cinematográfico.
O botânico Mark Watney (Matt Damon) e sua equipe liderada pela personagem de Jessica Chastain estão em marte coletando amostras de solo. Uma tempestade se aproxima e, tragicamente, Mark é atingido por uma antena e dado como morto. Sua equipe consegue fugir. O botânico acorda, então, em Marte, completamente sozinho. Como sobreviver em um planeta infértil, sem suprimentos? Ciência! Assim inicia-se o longa-metragem.
É verdade, em um primeiro momento o personagem de Damon entra em pequeno conflito existencial. A angústia toma presença em si, não acredita em sua sobrevivência, para que isso acontecesse teria que contar com a boa vontade de uma nova missão a marte para salvar uma única pessoa. Milhões de dólares para salva-lo em uma expedição que duraria anos (ou uma contagem de “sol” utilizada como contagem temporal). Como se não bastasse “apenas” essa bondade quase impraticável – convenhamos, no mundo de hoje acreditaria que seria salvo? – o botânico teria ainda que racionalizar a comida que sobrara na estação. E veja bem, ainda assim não seria o bastante. Aí entra a ciência.
Com um humor bastante peculiar, o roteiro consegue construir um personagem extremamente simpático, que merece ser salvo. O fato funciona de maneira a esconder a fragilidade presente na intenção otimista proposta. Em certos momentos esquecemos que, na real, ninguém salvaria um único cara, mas é o Matt Damon, ele merece ser salvo. Por outro lado, o humor é excessivo em muitos momentos, fazendo o ambiente perder a carga claustrofóbica a qual tinha potencialidade.
Apesar de colocar o uso da razão como um ser insuperável – o que ao meu ver é prejudicial, uma vez que afeta os a capacidade de imersão sentimental – a ficção científica proposta por Scott não se preocupa em explicar a todo instante a ciência. Ao contrário de Interestelar que, apesar de carregar maior carga sentimental, afunda-se completamente nas explicações que as imagens por si deveriam responder, Perdido em Marte preocupa-se na jornada como narração.
A fotografia avermelhada de Marte é impecável em seus termos descritivos. Constroem perfeitamente o cenário imenso ao qual o personagem é imerso. A grande angular engrandece o espaço e diminui o personagem criando, contraditoriamente, um ambiente claustrofóbico à medida que insere Mark sozinho em meio à multidão de vazio. Tomadas aéreas, como se pilotadas por um drone, ajudam a construir uma cartografia marciana e pontuar a posição, escala e velocidade do botânico nas pequenas jornadas pelo planeta vermelho. A utilização do 3d, felizmente, não serve apenas como artificio de captação de bilheteria. A técnica é bem utilizada para constituir uma maior profundidade de campo nos planos descritivos do planeta.
O filme apresenta uma montagem paralela à medida que demonstra linearmente a vida do personagem de Damon em marte e aqueles que estão na terra, tentando salva-lo. A técnica funciona de maneira eficaz e tradicional, sem nenhum exagero, mas que, contudo, mais uma vez, apresentará cenas de excesso otimista em uma globalização já fracassada.

 

Por fim, apesar de não cair em desgraça como os filmes mencionados no inicio, Perdido em Marte é um filme regular que, porém, conseguirá atingir seu objetivo maior: entreter massas. O otimismo extremo em uma globalização que já se mostrou fracassada e a racionalidade levada as últimas consequências são pontos negativos da narrativa. A fotografia, o bom humor (quando não em excesso) e o bom elenco são pontos positivos. Vale a pena o ingresso em um final de semana com amigos ou família.
★★★★★★☆☆☆☆ – Nota: 6/10

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