Crítica: Roger Waters – The Wall

Por Leonardo CarvalhoReino Unido – 2015

Direção: Roger Waters, Sean Evans.
Elenco: Roger Waters, Snowy White, Nick Mason, Dave Kilminster. 

O famoso álbum do
Pink Floyd, “The Wall”, repercurtiu no cinema em 1982, como uma espécie de
cine-clipe, um longa-metragem de mais de uma hora e meia que é movido de acordo
com as músicas originais do álbum, ora interpretado por atores, ora por
animações. Diferente disso, mais como um cine-show, “Roger Waters – The Wall” é
um documentário que traz o retrato da turnê mais lucrativa feita por um artista
solo.

No prefácio, Liam
Nesson concede um depoimento expressando seus sentimentos sobre o disco “The
Wall” e contextualiza os acontecimentos da época na Irlanda do Norte. Após
isso, uma trilha musical, com sons que vão ganhando peso vagarosamente, entra
para criar expectativas, já que o espectador espera pelo show sobre o clássico
álbum do Pink Floyd.
Há um corte e
vemos um Roger Waters bem sério, visitando túmulos em um ambiente silencioso,
como se houvesse uma atmosfera de luto. O filme alterna entre cenas do show
estupendo com todas as músicas do “The Wall” e sobre passagens da vida de
Waters em relação à memórias e perdas, mas não perdas de maneiras naturais, da
vida, mas perdas através de guerras e conflitos políticos. Na verdade, o
documentário todo é dedicado aos que morreram com essas causas específicas,
tanto é que nos créditos finais, há uma homenagem com uma série de fotografias
sobre diversas pessoas – incluindo Jean Charles e Chico Mendes – que morreram através
disso.
Waters mostra o
seu lado pessoal de sentimentos em relação a perda do pai ao ler uma carta que
confirma seu óbito em uma batalha sangrenta na Segunda Guerra Mundial. Além
disso, conta um pouco sobre suas memórias de quando era adolescente e sua
angústia sobre a ganância.
Estruturalmente,
esses momentos de reflexão do ex-integrante do Pink Floyd são intervalos dos
shows, para que o documentário da turnê não fique massante e não fique corrido.
Os cortes para os momentos pessoais de Roger funcionam até mesmo como um alívio
da intensidade do show, para que o espectador, a partir de dramas pessoais de
Waters, pense um pouco sobre o quanto a guerra é prejudicial em infinitos
sentidos.

 

Falando um pouco
do lado mais musical, o documentário tem na sua maior parte do tempo o
espetáculo da turnê “The Wall” com alternância em algumas cidades. O protagonismo
dos shows fazem com que o espectador fique arrepiado com a capacidade sonora
absurda. Tanto a edição de som quanto a mixagem, fazem com que o trabalho
sonoro seja um absurdo e emociona qualquer amante do Pink Floyd ou até mesmo o
admirador de música boa.
Desde as guitarras
de peso que abrem o show, passando por “Another Brick in The Wall” – as três
partes -, até “Comfortably Numb” e por fim “Outside the Wall”, compõem uma
atmosfera hilária com críticas duras à política e às guerras, além de conceder
um espetáculo visual entre um casamento da cenografia e a projeção do próprio
show. Muitos fragmentos das animações do filme “The Wall”, de 1982, foram
transportadas para a turnê.
O filme também é
muito bem trabalhado em seu roteiro. Assim como o disco “The Wall”, há uma
oscilação entre as canções e as cenas em que Waters aparece, entre a
intensidade e a calmaria. No desenvolvimento, por exemplo, a intesidade aparece
em “Another Brick in the Wall”, acalma em “Mother” e “Hey You”, e tem o seu
ápice em “Comfortably Numb”.
Depois de muita
reflexão e após os ouvidos estarem limpos com um som tão belo, Roger apresenta
um epílogo em que ele mesmo senta em uma mesa com Nick Mason (ex-baterista da
banda) para responder perguntas de fãs da banda que as enviaram pela internet.
Nesse momento, fica muito claro que é uma parte do filme para que haja uma descontração,
momentos finais que mostram risadas e nostalgia entre os dois ex-integrantes do
Pink Floyd, isolando todo o resto crítico do filme.

 

Durante todo o
filme, fica bem clara a mensagem que Waters quer passar e que o Pink Floyd
passou na época do lançamento do disco. “Roger Waters – The Wall”, dirigido por
ele mesmo ao lado de Sean Evans, não é um longa-metragem apenas sobre a turnê
solo em cima do disco, mas um apelo reflexivo sobre fortunas disperdiçadas em
mísseis e navios de guerra, enquanto há gente passando fome; sobre a miséria
que a guerra causa, sobre a disputa pelo poder que massacra milhões ao redor do
mundo. 

★★★★☆

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