Crítica: A Pele de Vênus

Por Philippe Leão
 
Direção: Roman Polanski – 2015
Elenco: Emmanuelle Seigner; Mathieu Amalric.
Certa vez, lendo a um autor Frankfurtiano – Walter Benjamin – deparei-me com uma ideia que para mim fora no mínimo duvidosa. O autor tratava do conceito de Aura na obra de arte. Para este, a incapacidade reprodutiva do teatro torna-o a única arte aurática. É verdade, o cinema é reproduzível, a fotografia o é, a música, discutível.
O novo filme de Roman Polanski (Repulsa ao Sexo) volta a flertar com o teatro – e por isso introduzi o paragrafo inicial – dantes realizado por Deus da Carnificina. Se em seu filme anterior o fato está em menor evidencia, em A Pele de Vênus a influência explode a tela. Contudo, seria de uma irresponsabilidade enorme tratar este como um “teatro filmado”, que absurdo seria, afinal, tão aurática arte o teatro. E é.
Como seria possível para alguém, depois de assistir A Pele de Vênus, dizer o contrário do Cinema? Ora, impossível a reprodução deste. Em primeiro lugar, não trata-se de um filme com linguagem teatral, há muito cinema aqui, a imagem fala mais que qualquer coisa. Os enquadramentos demonstram um mistério capaz de nos envolver na obsessão dos personagens. Ora, impossível a reprodução deste. A cada sala, cada espectador, verá o teatro como Cinema. Veja bem, não o teatro no cinema, como. A cada reprodução uma nova aura. Quão aurática arte!
Em desespero para encontrar a atriz para sua peça teatral, o diretor Thomas (Mathieu Amalric) encontra em uma jovem, Vanda (Emmanuelle Seigner), a perfeição inesperada, afinal, aparecera em um momento inesperado e inoportuno.
Apesar da simplicidade e da ironia na presença física da alteração fotográfica em cena – trata-se de um filme em locação única, onde a iluminação é alterada pelos próprios personagens – a composição visual é extremamente gráfica, capaz de ampliar o que parece ser já perfeito, Emmanuelle Seigner. A atriz tem uma das atuações mais lindas que vi no cinema nos últimos anos, e veja, não costumo nem gosto de usar esse “mais”, acho sempre perigoso, mas aqui não é. É uma certeza. Seigner encara perfeitamente as múltiplas peles de Vênus, uma completa Afrodite, sedutora e dominadora.
No teatro grego houvera o estudo das máscaras. Por conter um pequeno vão na altura da boca, estas eram capazes ao mesmo tempo de esconder o rosto e liberar o som: Persona. Pois bem, o ator debaixo da máscara sente-se mais a vontade em liberar um personagem, escondido por trás daquilo que supostamente não seria ele. Errado são os que pensam assim. As máscaras apenas mostram outro ser que vivem dentro de nós, que permitem ser colocados para fora ao mascarar-nos. Dessa forma, a personagem de Seigner é capaz de confundir, de maneira positiva, o diretor da peça e, inclusive, o espectador! Acabamos por não saber quando começa e quando termina a atuação de Vanda por alguns momentos – aqui há contradição, uma vez que Vanda já é personagem de um filme e Vênus a personagem dentro de um personagem – o efeito é extremamente narrativo, liberando uma tirania de sedução. Thomas fica extremamente atraído, mas pelo personagem de Vanda ou por ela em si? São o mesmo. Evidencia-se que um personagem deve fazer parte do ator. Na vida, estamos interpretando a todo instante e a performance é a vida.
Qual a funcionalidade da arte? Esse é outro tema que Polanski abarca em sua obra. A Pele de Vênus critica a todo instante a necessidade de entregarmos à arte uma função. Ora, função é necessariamente dar a algo um sentido fora dela. Ao dizer isto, uma caneta, por exemplo, só funciona se escrever no papel, a partir do momento que não o fizer perdeu sua funcionalidade. Feminismo, misoginia, etc. O filme deve ser político, não panfletário. A função do filme não é lutar por grupos – o cinema pode falar deles, pode agir politicamente, mas sua função jamais estará fora, no outro – a função da arte está em si, do contrário é propaganda (A propaganda tem sua função fora dela).
A capacidade de Roman Polanski é reconhecida. Torna-se cada vez mais evidente seu conhecimento do Cinema como arte da imagem, mesmo quando há transposição do teatro. “A Pele de Vênus” é o filme que tive mais prazer em ver em 2015. Recomendadíssimo.

 

★★★★★★★★★★ – Nota: 10

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