Crítica: Requiem para um sonho

Por Leonardo Carvalho
Estados
Unidos – 2000
Direção:
Darren Aronofsky.
Elenco: Jared Leto, Jennifer Connelly, Ellen Burstyn.

 

“Réquiem
para um Sonho” abre com o bairro do Brooklyn em época de verão. Cenas de
diversão e felicidade acontecem na vida dos personagens apresentados: Sara, a
mãe de Harry, além de Ty, seu amigo, e sua namorada Marion.
A
trajetória mais interessante é a da inesquecível Sara Goldfarb, uma mulher de
idade apaixonada por um programa de auditório que, em uma ligação, é convidada
para ir a este programa que tanto gosta. Feliz pelo convite, Sara quer aparecer
de maneira elegante, quer usa o vestido vermelho que usou na formatura de
Harry. Para que isso seja concretizado, é iniciada uma jornada para emagrecer.
Sara
começa sua luta contra a balança com dietas vistas em um pequeno livro.
Aronofsky mostra a angústia da mulher com cortes secos e rápidos ao lado de uma
trilha musical incômoda que alterna entre os escritos do livro e as expressões
da mulher. Aos poucos essa angústia vai tomando conta dela, que estava
acostumada a comer alimentos com açúcar sem qualquer preocupação. Ela vai ao
médico posteriormente, que receita pílulas para emagrecer e a partir desse
momento, se encontra o “réquiem”, as assombrações sobre seus desejos causadas
por efeitos dos remédios.
A
outra linha fala de Harry – o filho de Sara -, Ty e Marion, três viciados em
diversos tipos de droga e que vivem pelo presente, por aventuras. Tudo vai
muito bem com os seus cotiadianos, com o consumo das drogas e as diversões. As
diversões em dois planos: o primeiro plano, da realidade, em que desfrutam do
sexo para a busca do prazer e das drogas como complemento; o segundo plano é o
da ilusão, do efeito das drogas que causa um outro sentido nos personagens.
Os
acontecimentos começam a dar errado para as duas linhas de história com a
chegada do outono – um jogo de palavras com “fall”, que significa em inglês
“outono” e também “queda”, a queda das folhas, mas também a queda dos
personagens. A legenda para indicar a mudança da estação do ano também aparece
com uma queda, em que Aronofsky desfruta dos recursos da palavra e da imagem
para fazer uma rima brilhante. O começo de muitos problemas nas vidas dos
personagens é iniciado nesse momento, indo além, o outono é iniciado com Ty
sendo baleado e perseguido. Falando nisso, perseguição é, ao lado da  falta de dinheiro, tristeza e medo, o que
mais aparece nessa parte do filme. Tudo isso funciona como uma gradação que
leva a rumos chocantes no clímax das duas linhas de história.
Falando
um pouco sobre a parte técnica sem se prender muito à história, a montagem é um
absurdo. Assim como o diretor utiliza em “Pi”, seu filme antecessor, o ritmo é
muito interessante, com cenas e takes
extremamente curtos durante todo o filme, utilizando até mesmo repetições –
anáfora cinematográfica – de cenas para que os atos praticados pelos
personagens sejam enfatizados. Ao longo do filme isso é muito perceptível,
ainda mais no clímax, em que há uma velocidade de cortes impressionantes. A
sensação concedida é de uma obra cheia de energia, como se o espectador
sentisse também o efeito das drogas. Além dessa energia toda, há os momentos
mais calmos, mas não aparecem de maneira comum, mas distorcidos, como na cena
em que a imagem está dividida, quando Harry e Marion se encontram deitados numa
cama, de um lado a câmera foca no rapaz, no outro lado a outra câmera foca na
moça. Os movimentos que ambos fazem parecem uma pintura distorcida que vai
ganhando mais movimentos.
O
elenco é maravilhoso, comandado por uma atuação formidável de Ellen Burstyn
(indicada ao Oscar). O roteiro é muito bem estruturado e muito bem conduzido
por uma direção perfeita e inovadora. Perfeita também é a trilha musical de
Clint Mansell, que é incômoda e entra em sincronia sublime ao lado da direção
de arte, também impecável, que aparece com seus ambientes sujos e desgastados,
fazendo um diálogo com os personagens e a temática do filme.
Permito-me
ser subjetivo para explicar a posição do longa-metragem mais chocante de Darren
Aronofesky. “Réquiem para um Sonho” é, em minha concepção, o melhor filme em
questões técnicas desde o início dos anos 1980. Reconheço que existam
obras-primas durante esses mais de quarenta anos, mas nenhuma consegue ser ao
mesmo impactante e tecnicamente incrível como essa, que ouso dizer, não é só o
melhor filme dos anos 1980 em diante, mas também um dos melhores filmes da
história do cinema.

 

★★★★★★★★★★ – Nota: 10

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