Crítica: A Gangue

Por Leonardo Carvalho
Ucrânia
– 2015
Direção:
Myroslav Slaboshpytskiy.
Elenco:
Grigoriy Fesenjo, Yana Novikova, Rosa Babiy, Alexander Dsiadevich.
Vencedor do prêmio
da semana da crítica em Cannes, “A Gangue” chega ao cinema mundial
para trabalhar um experimento cinematográfico interessante e que consegue ser
muito agressivo através disso. O filme é brilhantemente dirigido por Myroslav Slaboshpytskiy e estará, sem sombra de
dúvidas, entre os melhores longa-metragens do ano.
Há uma legenda na
abertura dizendo que não há linguagem verbal, legendas e nem narrações, isto é,
a linguagem é transmitida através dos gestos e de sinais para surdos e mudos. A
ausência de linguagem verbal, uma experiência feita pelo diretor, ataca
diretamente muitas obras do cinema atual, que vivem à base de falas redundantes
para contextualizar o que está sendo mostrado na imagem.

“A
Gangue” mostra o cinema da forma mais pura, que é contar uma história
através de imagens. Não é preciso de diálogos verbais para entender o que está
sendo mostrado, pois sempre há uma maneira de conceder sentido. As expressões
traduzem o que está sendo dito; em outro elemento, os movimentos mais bruscos
dos atores dizem que há raiva ou indignação, outros com movimentações mais leves
indicam afeto, por exemplo; quando a cena é tomada por longas conversas entre
sinais, a câmera acompanha os atores para tal lugar, ou foca em tal objeto,
para que seja entendido o contexto.
Na história, um jovem (Grigoriy Fesenko) estuda numa escola com foco
em deficientes auditivos. Ele se infiltra na poderosa gangue local e, depois de
alguns testes e algumas ações feitas à gangue, toma um lugar de importância no
grupo. O sujeito que entra para a gangue, em uma noite,
paga para uma das meninas (Yana Novikova)
que trabalham como garotas de programa para a própria gangue, por uma noite de
sexo. Isso é o começo de um segundo fio de história, o fio coadjuvante, que
trará consequências estrondosas no conteúdo. Inicia-se uma paixão obsessiva do
rapaz pela moça, perseguindo-a e não deixando-a trabalhar como garota de
programa. Esse fio é curioso porque mostra também a falta de equilíbrio do
rapaz com a chegada de um sentimento novo, fazendo com que o filme explore seu
psicológico, e de maneira mais magistral ainda, só com gestos e expressões.
O cotidiano da
gangue é mostrado de uma maneira tão realista que chega a ser agressivo. Desde
a cena em que o menino entra para a gangue, sendo revistado, já é possível
entender que o filme não poupa o espectador de certas imagens. Isso é entendido
quando ele está sendo revistado e quando há uma espécie de treino para que saiba
brigar nos momentos necessários. Essa agressividade vai aumentando de maneira
gradativa e ela é intensificada no desenvolvimento, nas horas em que a gangue
assalta pedestres, e até nas partes em que há nudez e sexo.
No instante mais
agressivo de toda a história, que chega a ser mais incômodo do que as propostas
do cineasta Michael Haneke, há uma cena de aborto que atrai pela forma como é
feita. Através do realismo e da câmera estática próxima ao ato, a audiência
vira uma testemunha obrigatória daquilo, pois a câmera não se movimenta, fica
presa àquela unidade de imagem, causando náuseas às telas.
Além dessa cena,
há o final exemplar em temos de peso e técnica, em que a proposta de ataque
chega ao extremo. A conclusão é muito bem conduzida, é um absurdo aos olhos do
público, é tão forte que encerra uma obra-prima recente do cinema europeu de
maneira grandiosa por tudo o que foi mostrado anteriormente.

 

★★★★★★★★★☆ – Nota: 9

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