Crítica: Homem Comum

Por Leonardo Carvalho
Brasil
– 2015
Direção: Carlos
Nader.
Elenco: Nilson de
Paula, Jane e Liciane.

“Homem
Comum” é uma obra formada por paradoxos. O filme trata de pessoas simples,
comuns, contrapostas por questões filosóficas extremamente perturbadoras.
A simplicidade já
é encontrada na história de Nilson, o protagonista do filme. O documentário
retrata a vida de um caminhoneiro e sua família por mais ou menos vinte anos,
mostrando suas longas viagens, sua relação com a esposa e a filha, e sua
relação com a vida. Já de começo, a ilustração que há sobre Nilson é de um
homem comum, como muitos milhões de outros, levando uma vida trabalhadora e
humilde. Através dos diálogos percebemos a simplicidade, ou melhor, a
honestidade dos entrevistados, principalmente entre ele e sua filha.
Contrapondo o que
foi dito, o paradoxo começa a ser percebido quando o diretor Carlos Nader – que
conduz muito bem o retrato do passar dos anos, sabe utilizar bem os planos –
mostra o documentário sobre o documentário, isto é, a metalinguagem. “Homem
Comum” não é um tipo de documentário formal, em que só o entrevistado pode
falar, mas ele é descontraído, em que o diretor dialoga com Nilson e as outras
pessoas. Isso proporciona a complexidade nas questões de maneira mais próxima
do espectador, já que o próprio diretor, como uma voz over, arremessa sobre o
peito de Nilson, diversas perguntas desconfortantes: “A vida é
estranha?”, “A vida não parece um sonho?”. Entra em campo o
complexo.
O principal
paradoxo tratado, de fato, são pessoas simples respondendo àquelas perguntas.
Nader joga esse desconforto não só em Nilson, mas em sua esposa Jane, e jogou
até em outros caminhoneiros, quando seu projeto de filmagem era outro. Além
disso, para deixar o filme ainda mais reflexivo, ele traz algumas cenas de uma
obra dinamarquesa antiga que tem em seu tema a discussão entre a vida e a
morte.
Uma das reflexões
que podem ser vistas, por exemplo, é em uma bela costura que há porcos chegando
a um matadouro sendo banhados por uma mangueira de água, cortando posteriormente
para Nilson tomando banho. Depois de tantas questões sendo pensadas, podemos
refletir que os seres vivos são comuns, todos são animais, no final das contas,
todos vão para o mesmo lugar.
Depois da morte de
Jane, na metade do documentário, o filme dinamarquês aparece com mais
frequência, para o espectador pensar sobre o que é a morte, se a morte é apenas
física. Isso é reafirmado quando o diretor fala da memória ao lado do cinema,
em que a vida não tem um replay, nem a memória é exatamente um replay, mas o
filme, sim, o vídeo, sim, pois ele pode ser voltado e tudo o que vai ser
mostrado é exatamente como das outras vezes.
É engraçado que o
diretor, mostrando um pouco da sua subjetividade interna na obra, diz que
aprendeu com todos esses anos de gravação, que ele tinha medo da vida e da
morte antes disso tudo. A trilha musical tensa traduz com precisão a estranheza
e a incerteza do que é a vida.

 

Como é
testemunhado com Liciane no karaokê cantando a música “Segundo o
Sol”, composta por Nando Reis e conhecida por Cássia Eller, “não tem
explicação”, a morte, a vida, “não tem explicação”. “Homem
Comum” é um belíssimo documentário, sobre a alegria, a tristeza, as
incertezas, sobre o pensamento, sobre a morte, e sobre a vida.
★★★★★★★½☆☆ – Nota: 7,5

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