Crítica: LOVE

Por Philippe Torres
Direção: Gaspar Noé
País: França
Elenco: Karl Glusman; Aomi Muyock; Klara Kristin; Benoît Debie; Stella Rocha.

 

Certa vez, em uma conversa informal sobre o cinema e sua moralidade histórica, uma máxima foi colocada em questão: “se tem vagina é erótico, se tem pênis é pornô”. Obviamente a fala estava carregada de ironia, uma vez que esta leva consigo um histórico tabu machista e conservador. A ironia dita, então, expõe o que o cinema – arte que em diversos momentos da história tentou (e tenta) chegar próximo do que se diz como realidade – tenta esconder, o que muitos dizem ser a essência das ações humanas: O amor, o sexo. Recentemente, filmes como Ninfomaníaca e este que vos trago, tem trazido polêmica por onde passa, reflexo da novidade. A verdade é que, contudo, a explicitação fálica está sendo contemplada, assistida em grande público, seja motivado por uma taradice humana – natural a medida que somos seres sexuais, Freud explica – ou por uma apreciação artística graficamente diferente.
Diretor e roteirista do filme, Gaspar Noé traz a história de Murphy (Karl Glusman), um jovem frustrado ao lado de sua companheira (Klara Kristin) e filho provindo de uma gravidez acidental. Ao receber um telefonema da mãe de sua ex-namorada, Electra (Aomi Muyock), descobre que esta está desaparecida a meses, sem suspeitas de sua localização. A ligação traz ao jovem uma agonia e saudosismo profundo e, mesmo sem a encontrar a anos, começa a relembrar acontecimentos do relacionamento.
Assim como em Irreversível, Love traz uma narrativa composta de uma montagem complexa. Não se trata de uma história contada de trás pra frente (Irreversível), a anarquia proposta é expressa pela justaposição de cenas de tempos diferentes. Contudo, ouso dizer que não trata-se de uma construção proporcionada por flashbacks. Não há aqui uma percepção clara do presente, mas sim do que é passado e futuro. A sensação é provocada por cortes abruptos, anárquicos e extremamente gráficos, nos apresentando o antes e o depois. Do que? Não importa. Essa alternância temporal constante poderia trazer, se não acompanhada de algum elemento de encantamento, confusão na hora da construção narrativa. Não há, porém. A fotografia altera-se entre o passado e o futuro. O passado é carregado da cor de um vermelho psicodélico que amplia a relação erótica e intensa em todos os sentidos do antigo casal. O futuro apresenta um vazio depressivo representado pela constante presença do branco, acompanhando um personagem em decadência psicológica. É proposto um esculpir o tempo através das cores.
Uma narração em off nos da acesso ao que o personagem está pensando. A técnica é válida a medida que colocam à mostra sentidos que passariam batidos na vida cotidiana de um casal afundado na vida dos costumes. Uma cena que poderia ser um pequeno café da manhã torna-se um estressante ambiente para o personagem. Dessa forma, a direção consegue implementar uma ambientalização noir, ou neo-noir psicodélico. Contudo, em muitos outros momentos a mesma técnica é usada de maneira a explicar o que já foi exposto em outros momentos, tanto através da fala quanto imagem.
As cenas de sexo, apesar de sua característica explicita – que torna Ninfomaníaca um filme para crianças – tem um valor gráfico, uma composição fotográfica interessantíssima proporcionada pelo claro-escuro avermelhado. Importante dizer, também, não há exageros. Não há forçamento em relação a essas cenas que demarcam a intensidade e sintonia do casal no ato sexual, entregando ao espectador uma enorme diferença com relação a sua relação fora deste. Há maior sintonia dentro do que além do sexo. O casal é auto-destrutivo, faz mal um ao outro, mas no sexo parecem ser feitos um para o outro, até que a morte os separe.
À medida que desenvolve-se a decadência narrativa e psicológica do personagem, Noé  distribui sua composição de maneira eficaz. Os corredores vão se tornando cada vez mais estreitos por simples técnica de posicionamento de câmera. O estreitamento é tamanho a ponto de modificar a razão de aspecto, diminuindo o espaço físico da ação e, consequentemente, tornando-o claustrofóbico e doentio.

 

Por fim, o filme peca por excesso, mas não sexual como já explicado anteriormente. As imagens, as cenas se repetem. Sentimentos já explicados são mostrados novamente. Quando já estamos saturados de um vazio existencial no personagem, eis que nos traz mais uma cena para explicar-nos isto, perdendo ritmo e sentido. Assim, um filme que formou-se em 130 minutos, recusa sua própria duração.
★★★★★☆☆☆☆☆ – Nota: 5/10

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