Crítica: Lawrence da Arabia

Por Philippe Torres
Filme:
Lawrence da Arábia
Direção:
David Lean
Ano:
1962
País:
Reino Unido
Elenco: Peter O’ Tole; Omar Sharif; Alec Guiness;
Anthony Quinn; Claude Rains; Jack Hawkins.

No
mês de setembro os cariocas terão a oportunidade de conferir os filmes de um
dos maiores diretores da história. O cinema de David Lean terá uma mostra no
Estação Net Botafogo a partir do dia 3. Filmes consagrados como “Doutor
Jivago”, “Desencanto”, “A Ponte do Rio Kwai” e, principalmente “Lawrence da
Arábia” serão exibidos. É justamente sobre este último que trata-se a crítica.
O
filme narra a história de um jovem tenente do exercito britânico estacionado no
Cairo, em plena I Guerra Mundial, que pede transferência para a península
arábica. Lá, o oficial torna-se elemento de ligação entre os rebeldes árabes e
o exército britânico. Aliados, Lawrence (Peter O’Tole) e os rebeldes lutam
contra os turcos e seu Império Otomano, que deseja anexar a península arábica a
seu território.
O
que viria se tornar um grande épico de jornada fantástica, inicia de maneira
antiépica. Está longe de ser um erro, afinal, por tratar-se de um filme baseado
na vida do tenente Lawrence, os acontecimentos não poderiam ser modificados. Um
homem que por muitas jornadas passou, morreria em um bobo acidente de moto ao
voltar de sua viagem. Agora imagine mostrar toda a épica e terminar com uma
morte dessas: decadência narrativa. Então o diretor nos mostra, assim morreu
nosso herói, de maneira contraditória com o que está por vir. Prepare-se.
Após
um prólogo que constrói o personagem demonstrando suas motivações, temos uma
verdadeira aula de narrativa. Quando contamos uma história, ou seja, somos
narradores, nada mais fazemos que transportar um tempo para outro. O tempo do
acontecimento e o tempo que está sendo contado. Assim, o épico conseguirá
fragmentar os espaços para contar a história de uma vida inteira. A mudança da
paisagem do Reino Unido para a península arábica da-se com um simples sopro ao
fogo no pavil de um fósforo. Assim o tempo do narrador reduz-se, para
apresentar-nos o grandioso deserto.
As
paisagens ganham força descritiva a partir daqui. Uma fotografia que alterna a
utilização de planos nos personagens e grandes angulares (lentes abertas) fazem
com que sejamos introduzidos também no espaço a que estão articulados. Incomum,
uma das passagens mais marcantes do filme, se da na invasão dos rebeldes a uma
cidade Otomana. Não há grandes mudanças de planos, vemos a invasão de cima, plano
aberto. Para a película, a paisagem é de suma importância, esta é capaz de
influenciar as ações e sentidos do personagem. Assim, ainda na fotografia, as
cores são capazes de contribuir narrativamente. A laranja é a primeira
impressão que temos do deserto, quente aos homens que lá vive. O branco enche
de vazio aquele espaço que, além de explanar o excesso de luz, cria uma
atmosfera de ansiedade aos personagens em diversas passagens. À noite, azulada,
traz o frio do deserto e os acontecimentos mais sombrios em uma imersão no
inicio da mudança psicológica de Lawrence.
Na
película, os acontecimentos são sempre abertos. Uma narrativa que propõe-se a
não cair no esquecimento abre sempre às possibilidades. No momento que o herói
vai ao deserto encontra-se com um beduíno que o guiará. A jornada segue com
este por aproximadamente 20 minutos, até a chegada em um poço d’água, momento
que o diretor fecha as possibilidades daquele personagem, abrindo outras. Fomos
direcionados a acreditar que aquele seguiria em frente, como um suporte ao
herói. O diretor frustra nossas expectativas, saindo do lugar comum. Assim a
narrativa seguirá até o fim.

 

A
composição visual, auditiva, enfim, sensorial de Lawrence da Arábia alça-o como
um dos maiores clássicos da história do Cinema. Suas quase 4 horas de duração
valerão seu tempo. Um filme mais que recomendado.
★★★★★★★★★★ – Nota: 10

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