Crítica | Diário de uma Camareira (2015)

Por Philippe Leão
Direção: Benoît Jacquot
País: França
Elenco: Léa Seydoux; Clotilde Mollet; Dominique Reymond; Hervé Pierre; Joséphine Derenne; Patrick d’Assumçao; Vincent Lacoste; Vincent Lindon.

 

Diário de uma Camareira (Benoît Jacquot) é um clássico da literatura francês já adaptado aos cinemas duas vezes antes deste, uma versão menos conhecida de Jean Renoir e outra mais de Luis Buñuel. O romance é um retrato fiel de sua época, contando a história de Celestine, uma criada de quarto muito atraente que trabalha na casa de uma patroa – família Lanlaire – pertencente a uma aristocracia decadente nos anos 1900, mesmo ano do acontecimento do Caso Dreyfus, onde a questão judaica e a xenofobia aparecem com maior evidencia em território francês.
Como adaptação que é, o filme de Jacquot não foge da centralidade que o livro propõe. Há aqui uma estigmatização da escravidão dos tempos modernos, exibindo os segredos mais repugnantes da burguesia – que tal esse o motivo de Buñuel tê-lo filmado – e seu desejo pela domesticidade. Cena marcante e muito bem montada, já ambientada na casa da patroa mão de ferro, representa o embate de classes o qual a película propõe. A governante, sempre com seu sino angustiantemente agitado, chama sua criada, que não esconde momento algum sua inquietação perante a esta, e pede que busque uma agulha. Ao voltar pede a linha, em seguida a tesoura. Um de cada vez. Compulsivamente e propositalmente.
O patrão, por outro lado, mostra-se aproveitador, machista e exprime seu poder sobre sua criada através de um abuso sexual constante, como um sentimento de pertencimento. Celestine (Léa Seydoux), por sua vez, é uma mulher inteligente e desafiadora. Assim como com sua patroa – onde não tem escrúpulos ao falar mal sobre esta na sua frente, mesmo que essa não perceba – aproveita-se da situação com relação ao patrão. Celestine sabe que apesar de este estar constantemente se aproveitando dela, não pode dar investidas maiores com medo do descobrimento da mulher. Assim, debochada, a criada finge aceitar, dando sempre um sorriso convenientemente adjetivado, acrescido da ótima atuação de Léa Seydoux, perfeita para encarar o papel de uma mulher encantadora, porém, debochada e excêntrica.
O longa apresenta uma montagem que apresenta o trabalho de Celestine na casa dos Lanlaire como o tempo presente. A partir do fato, faz-se ingressões no passado da personagem, em outros trabalhos. Os flashbacks – técnica sempre muito complicada no cinema – são bem construídos, de maneira que suas intercessões entre o presente e o passado se dão de maneira rápida, crua, com cortes bruscos que muitas vezes nos requerem tempo para identificar que aquele é um acontecimento passado. Isso, porém, é positivo, uma vez que demonstra um surrealismo estético presente em outros momentos da obra.
Em termos narrativos, a regressão da personagem abre-nos acontecimentos da escória burguesa, que esconde dentro de uma caixinha (literalmente) sua essência, coberta de uma máscara de costumes. Ao mesmo tempo, tais flashbacks constroem a personagem nessa ambientalização caótica para sua condição. Em uma das passagens, a história em uma família comandada por uma senhora com um filho muito doente. Sua angústia revela um romantismo sofredor, e a personagem de Léa Seydoux, porém, mais leve, livre, fotograficamente representada por um figurino de tons azulados claros e iluminação que remove sombras. O contraste é grande com o tempo presente, na casa dos Lanlaire, onde suas roubas são densas e escuras e, apesar de se passar praticamente por inteiro durante o dia, a luz está constantemente demarcando as sombras.
A questão imagética proposta pela fotografia, dessa forma, é positiva através do figurino que, ao contrário de muitos filmes de época, não esbanja a estética por si, mas da sentido as suas cores. Por outro lado, o comportamento das câmeras apresentam zooms in e zooms out constantes. Certos momentos este comportamento parece ter importante fundamento narrativo uma vez que apresenta os toques surrealistas (mesmo que pequenos) que o diretor se propôs. Em outros, o distanciamento, a inquietação da personagem com a burguesia – caso da cena da tesoura que já discutimos, onde ao entrar no quarto para buscar os objetos, a câmera comporta-se inquietamente. Contudo, tais acertos parecem perder força e sentido quando o diretor opta por utiliza-lo constantemente e sem utilidade em diversas outras oportunidades.
Por final, o misterioso jardineiro Joseph, que não parecia ter papel muito importante durante o filme, recebe tal. A mudança acontece já no terceiro ato, momento mais problemático da película. Se antes os conflitos estavam envoltos em um estudo de personagem bem organizado, estes são esquecidos para chamar atenção à outra coisa, não fechando sequencias. Assim, o que há de principal é esquecido, o caso Dreyfus, que fora pouco mencionado ao longo do filme, volta à tona com força, mas a motivação não é forte o bastante. Apesar de necessária ao livro, a ambientação à questão judaica e xenofobia é forçadamente introduzida neste último ato, fazendo com que os outros dois bem construídos caiam ao chão. Assim, então, o diretor demonstra uma enorme despreocupação com seu clímax que, em certos filmes é positivo em termos de criação de surpresa ou abertura de possibilidades, mas aqui é apenas uma questão de confusão narrativa.

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