Crítica: Periscópio

Por Leonardo Carvalho
Direção: Kiko Goifman.
Elenco: Jean-Claude Bernardet,
João Miguel.
Brasil – 2015
“Periscópio” tem sua abertura marcada por
uma trilha sonora que capta ruídos e deixa o silêncio como o imperador da
imagem. Com Eric (Jean-Claude Bernardet), vemos a câmera passear por seu corpo,
observando suas manchas, suas unhas grandes e sujas. Na primeira imagem em que
Élvio aparece – muito bem representado por João Miguel -, ouvimos barulhos de
panelas quebrando, de maneira breve, o silêncio. O som da água pingando também
é notável, marca o incômodo, a angústia.
A montagem linear, ou seja,o ritmo calmo e parado,
é outro aspecto que o filme explora para mostrar a angústia dos personagens. Há
um clima de solidão e derrota na vida de Eric, de Élvio e do até peixe Jack, que
são os três integrantes do apartamento.
O diretor Kiko Goifman consegue organizar muito bem
todos os elementos que mostram a angústia. Além da montagem e da trilha sonora,
já faladas, vemos em uma cena, a dificuldade de Eric colocar um copo numa
bancada para pegar seus remédios. O plano detalhe marca muito bem isso. Outra
marca positiva dentro desse mundo de angústia é a direção de arte, que desenha
cada mofo das paredes, cada mancha e rachadura.
Esse silêncio e esse vazio fazem efeito nos
personagens. Élvio, devoto de São Jorge, e Eric, um estrangeiro que mora no
Brasil, são possuídos pela loucura naquele ambiente. Para mostrar isso, o
longa-metragem aciona as falas, ferramenta utilizada em espécies de monólogos,
mostrando o desequilíbrio de ambos, e até nos diálogos, que parecem não ter
coerência entre os interlocutores.
De súbito, sem qualquer explicação, surge um
Periscópio, um objeto usado em submarinos para ver imagens da superfície.
Depois do seu surgimento, é possível enxergar, no local, assim como nos
personagens, um clima mais ameno. Élvio raspa a cabeça, a barba, de aparência
mais limpa; Eric se fantasia, está mais forte do que nunca. Nessas imagens, uma
trilha musical dançante mostra a grande virada da história. Assim começa o
segundo ato, totalmente diferente do seu primeiro, mais cômico, com menos
drama.
A loucura continua, de fato, nas imagens, mas com
cenas engraçadas. Os personagens estão sorrindo, estão mais unidos, com
expressões mais calmas. Uma cena que mostra Eric tomando banho indica a
purificação.
Todo o ato dois, entretanto, traz uma aparência
falsa. Logo no seu começo, objetos vermelhos chamam atenção às cenas. O
vermelho, logo de começo, concede a sensação de não significar absolutamente
nada, mas significa o perigo, em que o espectador só entende posteriormente.
Esse perigo está relacionado à encenação de Élvio e Eric, pois os personagens
estão sendo alvos de observação, de um periscópio panóptico.  O final da
obra é o ápice do perigo sobre os personagens, sobre a prisão. O incômodo e a
angústia são elementos jogados ao espectador o tempo todo, que acaba sendo um
alvo daquele hospício.
Um pouco cansativo mesmo com seu curto tempo, mas
cheio de pontos que carregam a poesia. “Periscópio” é muito bom,
divertido e faz o espectador buscar diversas pistas para uma interpretação
final. Pelo o que foi dito dentro do seu molde e por seu conteúdo, a obra é
voltada ao público restrito, declarado ao verdadeiro amante do cinema e de toda
a arte em geral.
★★★★★★★½☆☆ – Nota: 7,5

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