Crítica | O Homem Irracional

Por Philippe Leão
Direção: Woody Allen
País: E.U.A
Elenco: Emma Stone; Joaquin Phoenix; Parker Posey; Allie Marshall; Bem Rosenfield; David Aaron Baker; David Pittu; Ethan Phillips; J.P. Valenti; Jamie Blackley; Julie Dawson; Meredith Hagner; Nancy Ellen Shore; Susan Pourfar.

 

Woody Allen, o último dos românticos, após seu insucesso em Magia ao Luar, lança seu mais novo filme um ano depois. O Homem Irracional apresenta velhos questionamentos existencialistas do diretor – principalmente com a morte e a angústia – fazendo-nos, como em muitos outros, imaginarmos que Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um alterego de Allen.

O primeiro ato cumpre seu papel de maneira eficaz. É-nos apresentado o persona em de Phoenix como um filosofo brilhante, mas que, porém, é extremamente infeliz e sofre de uma angustia profunda. O semblante do ator, somado a uma respiração acelerada e forte entrega ao espectador as características daquele personagem. Sua aluna, Jill (Emma Stone), é atraída por seu intelecto e constantemente abandona seu namorado para passar mais tempo com o professor. A atriz tem uma atuação contida e, como de costume, atua mais com seus grandes olhos.
O personagem criado por Allen compartilha de um romantismo que resgata filósofos alemães parecendo, em muitos momentos, uma espécie de Schopenhauer. Sua experiência com a morte nos comprova tal situação. Em uma passagem ainda no primeiro ato, alunos portando um revolver começam a discutir sobre a roleta russa, o professor, já bêbado, pega a arma e por diversas vezes dispara o gatilho, deixando a todos desesperados. Justificando de maneira que soa irracional, o professor diz ser uma experiência de vida-morte. Para os românticos, a vida só é plena quando encontra a morte, eis a construção. Irracional, aliás, é o adjetivo perfeito para o homem, afinal esses filósofos são aqueles que justamente acusam o excesso de racionalidade em prol de uma estética, a vida como uma obra de arte. Como bom romântico, Abe precisa encontrar um sentido para sua vida, para sumir com sua angústia. A bebida, as aulas e até mesmo o romance com Rita (Parker Posey), personagem que proporciona as cenas mais engraçadas do filme.
Eis que surge o conflito. A busca pelo sentido para a vida viria por acaso. Em uma lanchonete, com a já apaixonada Jill, ouvem uma conversa em outra mesa. Uma mulher estava desesperada, pois um juiz teria retirado a guarda de seu filho, desejando, inclusive, a morte do juiz. A partir desse momento Abe começa a arquitetar o assassinato do juiz, afinal, ninguém desconfiaria de um desconhecido. Mais uma vez a filosofia entra em questão na arte de Allen, a banalidade do mal de Hannah Arendt apresenta-se. Abe convenceria a si mesmo: se é para tornar o mundo melhor, mesmo que pouco, qual o problema de fazer um ato moralmente considerado ruim? Matar aquele juiz corrupto ajudaria a mãe da lanchonete e, também, futuros mau julgamentos. O espírito do personagem começa a crescer nesse momento, tornando-se a pessoa feliz que antes não era.
A partir do assassinato começa uma desordem narrativa. Se antes a película apresentava-se como um estudo de personagem, a partir daqui constrói-se de maneira confusa, trabalhando em uma linha entre a comédia e o mistério. Allen repete estruturas de filmes anteriores, lembrando em muitos momentos Match Point, mesmo que este último não confunda-se constantemente. Apesar de estar muito bem em sua atuação, a película é ingrata à Emma Stone, afinal sua personagem começa a ganhar maior importância justamente nesse momento.
Como de costume em muitos filmes na obra de Allen, o filme peca na verborragia. É fato que o humor de costumes que o diretor sempre fez e sabe fazer funciona a partir dos diálogos. Contudo, em O Homem Irracional, essa verborragia é o que faz tudo: estabelece a comédia, a construção dos personagens, o mistério, os conflitos, o ambiente. Tudo. Suas narrações em off estão constantemente explicando o que a imagem poderia e muitas vezes já havia mostrado.
Se o primeiro ato é bem construído e o segundo confuso, temos um terceiro ato apresentando um final que expõe um final em total anticlímax. As ações práticas da personagem de Emma Stone, opostas a do professor, estão simbolicamente representadas como uma luz platônica, reveladora. Obviamente, entenderão ao assistir.

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