Crítica: O Pequeno Príncipe

Por Philippe Torres
Filme:
O Pequeno Príncipe (2015)
Direção:
Mark Osborne

 

País:
França; Canadá
Como
o pôster oficial diz, o filme dirigido por Mark Osbourne se propõe a redescobrir a
história mais amada de todos os tempos. Isso, talvez, tenha um motivo. O livro
de Antoine de Saint-Exupéry nunca dantes foi adaptado de maneira convincente ao
cinema (nem mesmo a visão de Stanley Donen convence-me). De fato a afirmativa
comprova-se para milhares de pessoas. O livro é daqueles que ultrapassa a
barreira de idades, ganhando e perdendo múltiplos significados conforme o
tempo. Em particular, este foi o livro da minha infância, e não esperava muito
desta adaptação.
Em
primeiro lugar, ao assistir ao trailer, projetei ideias de como se proporia a
construção narrativa: Uma menina encontraria o velhinho – o antes jovem aviador
que vivenciara os acontecimentos com o Pequeno Príncipe – e contaria a esta
toda a história. A menina seria, então, apenas um artifício para que toda a
magia acontecesse. Assim parecia ser. Contudo, a película apresenta uma
construção de primeiro ato que, logo de vista, surpreende. A ideia é
implementar personagens incluídos em um mundo sistemático, produtivista. Assim,
a menina é surpreendida com uma pergunta fora do planejamento ao tentar entrar
em uma escola supostamente de excelência – os métodos adotados por esta nos faz
duvidar – “O que quer ser quando crescer?”. Após o fracasso, a mãe da menina planeja
uma mudança para uma nova casa. Parte do plano da mãe, a mudança afastaria a
filha de tudo, dedicando-se mais intensamente aos estudos e em tornar-se “Uma
adulta maravilhosa”. Há, inclusive, um quadro de planejamento que conta dias,
meses e anos de tarefas à fazer. A fotografia expressa muita coisa que não é
preciso ser dito através do dialogo. Os tons de cinza apresentado pela menina,
sua mãe e as casas do condomínio onde moram trazem a contenção do espírito
infantil e elevam a reprodução quantitativa dos elementos. Um plano aéreo
demonstra que o problema, contudo, não está naquela casa, estão todos ficando
assim: dominados por poder que os controla em um quadriculamento urbano
perfeito que não da a qualquer localidade a diferença. Aliás, ser diferente é
ruim. A afirmação é também expressa pela imagem. A casa comprada pela família
foi mais barata que o convencional, isso porque estaria ao lado de uma casa
fora dos padrões geométricos do comum, com cores vivas. Lá vive o aviador, um homem
exótico envolto de adultos “cinzas” e chatos.
A
jovem, sempre sentada a frente dos livros, em seu quarto cheio de globos de
neve com uma grande cidade dentro – isso ganharia um grande significado
simbólico mais tarde e a atenção a estes ainda no primeiro ato é bastante
inteligente – é observada pelo velho que, finalmente, articula uma aproximação
lançando, em forma de avião, a primeira página de seus desenhos e história do
Pequeno Príncipe. Em primeiro momento, a loucura é aprisionada pela razão, em
uma lata de lixo. Mas o encontro não tardaria, movido pelas dúvidas, mesmo que
a princípio sistemáticas.
Após
um primeiro ato muito bem construído, onde a personalidade de cada um dos
personagens nos foi mostrada e experimentada de maneira eficaz, o encontro do
aviador e a menina celebra o tarde inicio da infância. A partir daqui,
percebemos uma mistura de modelos animativos: A animação gráfica continua a
contar a história da menina, enquanto uma animação plástica, com traços
rasurados, porém, delicados introduzidos ao contexto, demonstrarão os momentos
em que a imaginação da menina está sendo exposta à história do Pequeno
Príncipe.
A
partir desse momento, o filme passa a se construir em uma montagem paralela
entre a vida da menina e a história que segue: A visita do príncipe aos
asteroides, o encontro com a raposa, a cobra… Até que a vida da personagem
torna-se uma grande metáfora do livro, ou vice-versa, reencontrando personagens
da história em sua vida, nos adultos, na vaidade, na ganância e na visão
distorcida do que é essencial. Afinal: “O essencial é invisível aos olhos”. Eis
a grande originalidade! Ao mesmo tempo em que consegue ser fiel ao clássico,
exprime grande desejo inovador, transformando o livro na grande metáfora da
vida com um esplendor de fantasia. Não trata-se, como disse no inicio, de
utilizar uma menina para justificar as histórias contadas por um velho louco,
trata-se de uma narrativa construída ao redor da personagem principal, tendo O
Pequeno Príncipe como suporte para os acontecimentos narrativos.
É
bem verdade, porém, que o filme alonga-se um pouco no terceiro ato, perdendo um
pouco de ritmo. É justamente esse momento que o longa começa a explicar todo o mistério envolvendo a obra de Exupéry, fato esse que, infelizmente, faz a qualidade cair bastante. Se o filme constrói-se de maneira bastante original, é também verdade que tem um desfecho completamente comum. Assim, o primeiro e segundo ato, lindos visualmente e sensorialmente, desvalorizam-se em prol do terceiro.  Contudo não faz este sair de um conjunto de melhores animações
do ano. Original, O Pequeno Príncipe é, ao meu ver, o segundo nome na corrida
ao Oscar, mesmo que seja cedo dizer, junto a Divertida Mente.
★★★★★★☆☆☆☆ – Nota: 6/10

 

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