Crítica: Força Maior

Por Leonardo Carvalho
Suécia
– 2014
Direção:
Ruben Östlund
Elenco: Johannes Bah Kuhnke, Lisa Loven Kongsli,
Clara Wettergren, Vincent Wettergren.
Lentamente
se inicia “Força Maior” filme indicado ao Globo de Ouro na categoria
de melhor filme estrangeiro em 2015. Vemos uma família tirando dias de férias,
ou melhor, aproveitando os dias de férias de Tomas, o pai da família que é
mostrada, – muito bem interpretado por Johannes Bah Kuhnke, o destaque do
elenco – em uma área montanhosa.
O
filme é dividido por partes, pelos dias em que a família utiliza para esquiar
nos Alpes. Na abertura da obra o que se observa é um clima ameno, um clima de
relaxamento, com imagens de quadros no fundo de pessoas felizes simbolizando a
serenidade. A grande virada do filme acontece quando a mesma família está
almoçando em um restaurante com vista para os Alpes onde, de súbito, ocorre um
pequeno deslizamento nas montanhas que provoca espanto nas pessoas que estavam
no restaurante. A mãe protege os filhos enquanto o pai corre para se proteger,
de maneira individual. Esse é o ponto de partida dramático que desenvolve o
tema central do longa metragem: a discussão entre o marido e a mulher.
O
que se encontra a partir disso são brigas e discussões entre o marido e a
mulher sobre o ocorrido. Enquanto o homem defende o seu impulso, isto é, ele
agiu sem pensar no momento, conforme sua natureza, a mulher o reprova pelo
motivo de ele não ter protegido seus filhos. Fica evidente que a avalanche
representa neste caso uma metáfora sobre um começo de problemas, de intrigas
entre ambos, de um pavio muito curto a ponto de estourar a qualquer
oportunidade.
É
interessante observar que no começo da obra, assim quando a família chega no
hotel, todos fazem as tarefas juntos, como escovar os dentes. Chega ser
engraçado que os filhos, o marido e a mulher dormem na mesma cama e utilizam o
banheiro no mesmo momento. Tudo isso representa a união. Após a avalanche o que
se encontra é o afastamento entre o marido e a mulher, como na cena em que
ambos escovam os dentes de maneira separada, ou seja eles estão no mesmo
momento no banheiro, porém estão afastados dentro da composição da imagem, um
aparece na extrema esquerda e o outro na extrema direita. Além disso, é bom
destacar que nesta mesma cena ambos estão com expressão de
distanciamento.
É
curioso que existe um contraste entre a decoração do hotel – que expressa
calmaria – e as belezas de paisagem com a relação do marido e da mulher. O
clima frio do local, no entanto, corresponde perfeitamente o momento da
relação. O diretor utiliza paradoxos entre o interior dos personagens e o
espaço. Com o decorrer dos capítulos vemos uma gradação crescente de
sentimentos ruins e uma intensificação de tristeza e rancor no interior deles.
Outro
elemento importante que é bem encaixado ao conteúdo são os planos estáticos.
Com poucos cortes e planos de pouco movimento, o filme utiliza mais um jogo
técnico para traduzir as emoções dos personagens protagonistas. O ritmo lento
da montagem é colocado a favor da obra para expressar os dias lentos que se
passam para as figuras centrais.
A
ironia é uma figura de linguagem que também está presente. Ela aparece em três
grandes momentos. O primeiro é no conteúdo, quando o casal joga o problema da
grande discussão por causa da avalanche com outros dois casais, como se não
tivessem forças suficientes para reverter a situação. O segundo aparece na
trilha musical, que em seu som já é irônica por si, ainda mais quando jogada ao
lado da imagem. O terceiro e último, acontece de maneira curiosa. Quando a
família vai ao esqui no último dia, a mãe se perde do pai e dos filhos. Com o
instinto de um homem, para provar à mulher que ele se preocupa com a família, o
rapaz sai em busca da nova no meio do nevoeiro. Ele volta com a mulher e tudo
parece ter se resolvido. Há até uma cena em que eles estão indo embora com uma
imagem formada por um plano distante, que aos poucos vai se aproximando dos
quatro dando a entender que houve uma união novamente entre eles.
A conclusão, contudo, mostra um ônibus sendo
pilotado por um motorista fora de controle. Ele não consegue ter noção de
espaço na descida da serra, o que provoca pânico nos passageiros, inclusive na
família. Todos saem do ônibus com medo de continuarem sendo conduzidos por um
piloto desnorteado, obrigando todas as pessoas a descerem um longo trajeto a
pé. Isso mostra que a vida, tanto em relacionamentos entre casais quanto
qualquer outra pessoa, passa por turbulências e momentos de paz, acertos e
erros, como se a vida fosse uma grande antítese, até mesmo nos momentos de
férias.
★★★★★★★★★☆ – Nota: 9

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