Crítica: O Homem Elefante

Por Leonardo Carvalho
Estados
Unidos – 1980
Direção: David Lynch
Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft,
Freddie Jones, John Gielgud, Hannah Gordon.
David
Lynch é conhecido por seus trabalhos cinematográficos de difícil compreensão.
“Eraserhead” e “Veludo Azul”, por exemplo, são obras desse
tipo. Em “O Homem Elefante” o que se encontra não é um enredo
complicado na compreensão, mas necessita que o espectador tenha um pouco de
sensibilidade quanto aos aspectos visuais e quanto ao poético dentro do cinema.
Como
em “A Metamorfose” de Franz Kafka, Lynch impressiona, mas através de
imagens, um homem deformado em seu corpo todo. O que mais impressiona, de fato,
é o seu rosto, com grandes inchaços e bochechas tortas, mérito da equipe de
maquiagem que levava cerca de oito horas para caracterizar o ator. Como Kafka,
o diretor inglês mostra ao espectador a rejeição de pessoas menos favorecidas
dentro de uma sociedade “normal”.
Joseph
Merrick – interpretado brilhantemente por John Hurt -, o homem elefante, é
motivo de risadas e exploração por causa das suas deformidades. Ele é explorado
por um homem conhecido como Bytes, dono de um circo, que o coloca como uma
atração de aberrações. Em um belo dia, o homem elefante é levado ao hospital por
um médico (Anthony Hopkins), que tem a intenção de estudá-lo, além de curá-lo
de uma bronquite.
É
interessante que, quando chega no hospital, o homem elefante veste uma espécie
de pano para cobrir seu rosto com a intenção de que ninguém o visse, já que,
como em uma cena posterior em que uma enfermeira se apavora com sua
deformidade, ele é assustador em sua aparência. Falando na aparência do
personagem, Lynch, organizando muito bem a iluminação, não deixa o espectador
vê-lo por inteiro já no início, o que se vê são partes do homem. Aos poucos ele
vai liberando suas características de aparencia, até a grande surpresa, no
hospital, que funciona como um choque para o público.
Mesmo
com a segurança oferecida pelo hospital onde ficou, um outro homem que tinha a
intenção de ganhar dinheiro com isso, levava as pessoas até ele caso o
pagassem, deixando Merrick ainda mais melancólico sobre sua aparência, pois era
motivo de curiosidade daquela população. Aos poucos o que se vê é a melhoria na
recepção pelo homem elefante. O médico, que se torna um grande amigo, apresenta
pessoas novas ao rapaz para que ele pudesse ver que não era visto por todos
como um monstro.
Em
uma das cenas mais emocionantes, cheia de moralismo também, uma mulher, esposa
do médico, é apresentada a ele. No momento da apresentação, a moça não grita de
sustos, fazendo com que ele ficasse emocionado por ter sido tão bem recebido
por “uma mulher bonita”, como ele diz. Depois também é recebido pela
Miss Kendal, uma importante figura do teatro. Esses exemplos mostram o
acolhimento do homem sobre os olhos das pessoas sem deformidades.
Em
contrapartida, quando é capturado novamente por Bytes e depois fugindo com a
ajuda de outras aberrações do circo, ele vai à outro lugar, longe daquele que
as pessoas o já conheciam. No novo local, um menino o persegue perguntando o
porquê de sua cabeça ser tão grande, causando um transtorno numa estação do
trem e que causa um desabafo: “Eu não sou um elefante, eu sou um ser
humano”. A cena – uma das mais tristes desde os anos 1980 – é o ápice do
sofrimento do personagem e do espectador.
O final, no entanto, é um espectáculo, digno de
aplausos. Lynch conclui com uma multidão, influenciada por Miss Kendall,
aplaudindo Merrick depois de uma apresentação em um teatro, lugar onde o homem
fora pela primeira vez.  Terminar assim já seria ótimo, mostraria a
superação de um homem desfavorecido, mas a conclusão poética se dá com o homem
elefante deixando de ser monstro até em aspectos físicos, tirando travesseiros
da cama – que eram colocados para ele dormir sem deitar a cabeça, pois morreria
com isso – para dormir como uma pessoa normal, como a da imagem que sempre
ficava olhando no hospital, deitando sua cabaça tranquila para acordar como um
homem, e não como um homem elefante.
★★★★★★★★½☆ – Nota: 8,5

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