Crítica: Código Desconhecido

Por Leonardo Carvalho
Direção: Michael Haneke
Elenco: Juliette Binoche, Thierry
Neuvic, Josef Bierbichler, Luminita Gheorghiu, Alexandre Hamid, Walid Afkir.
França – 2000
“Código Desconhecido” é
, como disse Andy Klein do New Times (L.A.), “um quebra-cabeça com uma
solução não óbvia.”. Isso é verdade, já que se trata de um enredo que
mostra o cotidiano em que o espectador vai conhecendo as características de
cada grupo de personagens, mas todos eles possuem problemas bem complicados,
que não se resolvem com o decorrer da história.
No filme, Juliette Binoche, com
uma atuação brilhante, uma das melhores de sua carreira, vive o papel de uma
atriz francesa casada com um fotógrafo de guerra. Esse é o primeiro grupo
tratado no filme. O segundo, composto na maior parte das vezes por uma única
pessoa, é de Maria, uma romena que vive de maneira clandestina na França,
tentando uma vida melhor para enviar dinheiro aos seus familiares. O terceiro
grupo trata uma família negra, ou melhor, um grupo de pessoas negras com
problemas de questões sociais – não falam francês e são vistos com intolerância
– e relações familiares que vivem na França,  que tem Amadou como
protagonista, um professor de percussão. A proximidade dos personagens
acontecem quando Jean, um garoto revoltado e cunhado da personagem de Binoche,
joga um pedaço de papel em cima de Maria, que estava sentada no chão de uma
rua. Revoltado ao testemunhar isso, um jovem negro provoca uma briga com Jean
para defender Maria, causando mais problemas para todos os grupos e
desencadeando diversas reflexões sobre o multiculturalismo. Haneke
trabalha no que foi dito o ponto de partida de todo drama, uma cena inicial
para desencandear o conflito. A consequência dessa cena é Amadou, o rapaz
negro, levado preso junto com Maria, enquanto Jean sai impune, o que mostra a
opressão do país contra a comunidade negra ou ao estrangeiro de uma classe
popular.
Toda a narrativa é composta por
imagens que causam incômodo. Haneke tem essa característica em todos os filmes,
seja no conteúdo ou na própria composição do filme. No caso de “O Código
Desconhecido”, a composição é o principal incômodo  para o espectador
que busca entretenimento. Haneke desconstrói essa visão de cinema como diversão
desde “O Sétimo Continente”, e a mais forte tenha sido, talvez, em
“Jogos Perigosos”.
Pôster de Código Desconhecido
O diretor austríaco utiliza
imagens estáticas por muito tempo com diálogos longos, nada de desnecessário, é
verdade, mas que consomem aos poucos o espectador. Outro aspecto que causa
incômodo são os cortes no meio das cenas, isto é, como mostram só o cotidiano
dos personagens de maneira naturalista, há cortes de maneira inesperadas, mesmo
que a cena tenha poucos minutos de desenvolvimento. O roteiro também causa
incômodo nas cenas vazias, em que utilizam
o espaço cênico para causar
mais enigmas, em que o filme não explica certas questões, como esta:  a campanhinha do apartamento de Anne toca e,
ao antender, não aparece ninguém, a não ser um bilhete que a atriz pega, lê e
não sabemos o que está escrito, em nenhum momento isso é passado à audiência.
O incômodo parece ser algo ruim,
porém, tudo isso é trabalhado com o poético. Haneke além de trabalhar isso como
uma proposta, as imagens, o conteúdo e os diálogos, são trabalhados da maneira
artística, ou seja, com aspectos do cinema, usa o incômodo como uma proposta
inovadora, o poético é a junção desses dois, já que o cineasta vê o cinema como
arte, ele trabalha a arte pela arte somente. Um bom exemplo dentro das camadas
que retrata bem esse incômodo pelo poético é a trilha musical tribal de Giba
Gonçalves, que faz parte do ambiente de Amidou, além de, no clímax,
intensificar demais a cena.
O filme abre com uma cena de
gestos entre uma turma de surdos, que acaba sendo um código desconhecido entre
eles, já que ninguém advinha a mímica feita pela menina. Logo em seguida, o
título do filme aparece e um plano sequência nos mostra Anne – a atriz – e Jean
num travelling lateral. Essa cena é a
que causa tanta confusão na história entre os personagens.
Ao longo do desenvolvimento,
depois dessa virada inicial, o que se vê é o rumo da vida que aquelas pessoas
vão tomando com o passar do tempo. Maria não consegue se firmar no emprego e
foge para o interior. O grupo de pessoas negras, assim como Amidou, têm muitos
problemas de relação entre si e dizem o tempo todo que são desprezados e
oprimidos no território francês. Anne parece ser a mais sólida, tem uma relação
ruim com o marido, por ser fotógrafo de guerra, mas vive de maneira tranquila
no seu país, a não ser na cena do metrô, que é abusada por dois jovens. Ela
também tem uma relação boa com seu trabalho de atriz, o que talvez mostre o
maior número de oportunidades aos brancos, uma crítica de Haneke sobre o espaço
social.
Por fim, as duas cenas finais são
muito interessantes. A primeira, o clímax, que traz de novo o travelling lateral começando por Maria,
sem rumo, que mal pode ficar sentada no chão em frente à uma galeria. Anne acha
seu rumo, entra na sua casa que é protegida por um código, mas seu marido
parece duvidoso, ia entrando em casa, mas volta, vai à uma loja, atravessa a
rua e fica olhando pela janela. A cena é muito parecida com a que desenrola a
história, só que é mais longa. Na conclusão, um novo código desconhecido, feito
por um menino através de uma linguagem surda, de gestos, que Michael Haneke
traz mais uma vez o poético ao mostrar que não existe uma solução para os
problemas do multiculturalismo e do cotidiano até mesmo daqueles que não são
oprimidos, ou se existe uma solução, esta existe em um código desconhecido.
★★★★★★★★☆☆ – Nota: 8

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