Crítica: Divertida Mente

Tristeza (Azul); Raiva (Vermelho); Medo (Roxo); Repulsa (Verde) e Alegria (Amerelo)


 
 
Por Philippe Torres
Direção:
Pete Docter
Ano:
2015
País:
EUA
Elenco:
Amy Poehler; Bill Hader; Lewis Black; Mindy Kaling; Phyllis Smith; Bobby
Moynihan; Carlos Alazraqui; Diane Lane; Flea; John Ratzenberger; Josh Cooley;
Kyle MacLachlan; Lori Alan; Paula Poundstone; Rashida Jones; Richard Kind.
Pôster de Divertida Mente

Enfim
Pixar. Após um longo período de estiagem, com produções baratas, preguiçosas e
continuações sem sentido, finalmente o studio que encantou a todos com suas
animações gráficas traz um longa-metragem para ficar marcado. Pete Docter é o
responsável por este renascimento. O autor dirigiu e roteirizou: Monstros S.A,
UP- Altas Aventuras e Wall-e. Além de ser roteirista dos dois primeiros Toy
Story. Resumindo, Pete Docter trouxe aqueles que talvez sejam os mais ousados
filmes do studio. Divertida Mente não é diferente.

Logo
de inicio somos introduzidos na mente de Riley ainda bebê. Está tudo escuro, um
painel com botão único domina o espaço. Ali está Alegria, personagem
responsável por tal sentimento. Ao mesmo tempo, vive a tristeza, que briga por
espaço no painel. Assim, o bebê é construído, com a mistura de choros e
sorrisos, uma introdução perfeita para o que está por vir.
A
construção narrativa do filme se estabelecerá em uma montagem paralela que ora
mostrará o interior da mente da personagem, ora os acontecimentos do mundo da
mesma. Assim, o longa-metragem interligará os acontecimentos dos dois espaços,
demonstrando uma construção pouco convencional à filmes infantis e
estabelecendo, mais uma vez depois de muito tempo, a PIXAR em um patamar
diferente à suas concorrentes.
Alegria, Tristeza e Bing Bong rodeados por uma paisagem
colorida pelas esferas de memória.

À
medida que a criança cresce, o painel torna-se mais complexo, com uma multiplicidade
de botões. Mas, se antes a mente de Riley era dominada por dois sentimentos,
novos personagens nos são apresentados. A fotografia recebe em sua composição
um design de produção que demonstra uma maturidade incrível, como convém aos
filmes PIXAR, nesse momento. Cada um dos habitantes da mente da criança é
descrita por uma cor: Alegria tem predominância amarela que remete ao
sentimento tratado; A Tristeza é representada pelo azul, cor fria utilizada com
bastante frequência no cinema para representar o frio e a melancolia; O Medo é
representado pela cor roxa, constantemente utilizada para expressar o medo da
morte; A Repulsa (traduzida como “nojinho”) é verde, bom, normalmente aquilo
que temos nojo tem essa cor. E o Raiva é vermelho, não é preciso dizer o
motivo, convenção social. É verdade que se fosse apenas as cores serviriam
apenas como descrição simples da personalidade dos pequenos personagens.
Contudo, logo somos apresentados ao que há de mais genial na película. À medida
dos acontecimentos de Riley, esferas que representam as memórias da personagem
são formadas. Essas esferas ganham cores de acordo com a lembrança sentimental
de sua memória. Logo, uma memória feliz é uma esfera amarela. Essa construção
cria uma paisagem repleta de cores e significados, que nos expõe a mente da
personagem, os sentimentos mais comuns a ela.

Sala de controle do Pai
Sala de controle da Mãe

Para
estabelecer a mudança de temperamento dos sentimentos, a narrativa é criativa.
É possível perceber que na mente dos adultos da trama não é a Alegria que
comanda o painel central que, aliás, é muito maior e complexo. Porém, apesar da
liderança de outros sentidos, vemos personagens muito mais maduros,
controlados, em comparação com a mente de Riley sempre em conflito. O
estabelecimento, aliás, proporciona ao espectador uma das melhores sequências
do filme. Demonstrando a imaturidade natural masculina e os sentimentos
controlados femininos, mesmo que apenas aparentes.

Uma das sequências mais marcantes do Longa-metragem

Ainda
parte da construção fotográfica do filme, à paisagem é somada aquilo que é
chamado de “ilhas de personalidade”. As esferas que representam as memórias
mais significativas (chamadas memórias permanentes) constroem uma ilha de
personalidade, uma explicação material para a formação pscico-social de uma
pessoa. Dessa maneira quatro ilhas são apresentadas na cabeça de Riley: A ilha
da família, amizade, roquei e bobeira. Esses elementos fotográficos são de suma
importância para a construção narrativa do longa-metragem. Riley vive um
momento difícil de sua vida, a mudança de casa afeta-a profundamente. O novo
ambiente cria uma relação familiar e social em decadência. Nesse momento
acontece o ponto de virada. Quando surge uma memória permanente azul (triste),
Alegria tenta impedir que esta torne-se uma ilha de personalidade. Tristeza,
porém, tenta impedir que Alegria interrompa o processo e as duas acabam saindo
da sala de controle da mente de Riley e embarcando em uma espécie de Road Movie
pelo (sub)consciente humano.

Ilhas de Personalidade: Família, Amizade, Roquei e Bobeira

 

Sem
alegria e tristeza, a mente de Riley agora é comandada pelo Medo, desgosto e
raiva e a menina vai à decadência contínua. Nesse momento vemos a fotografia do
mundo exterior perder saturação. De maneira inteligente, apesar de ser um filme
infantil que, porém, atinge diversos públicos, não é visto uma espécie de
subestimação do espectador. A confusão dos sentimentos de Riley começa a
desconstruir os personalidades pretéritas, ao mesmo tempo em que demonstra a
maturidade da personagem, o fim da infância é breve.
A
jornada embarca no subconsciente, no mundo dos sonhos, nas abstrações e desejos
humanos. A arte diferencia-se em cada um desses mundos, uma explosão de imagens
incríveis, com fotografia esplendorosa e montagem pouco convencional: como no
momento em que os personagens ganham formas abstratas. Nesse mundo um novo
personagem é apresentado, Bing bong, um amigo imaginário de Riley, ele será
importantíssimo para demarcar o fim da infância da personagem, mas assista para
conferir mais.
Por
fim, Divertida Mente explora um conceito fundamental. É exposto a nós
diariamente uma ideia de felicidade perfeita que, na prática, se mostra inalcançável.
À medida que conquistamos o que queremos já não o desejamos, estando a
felicidade em outra coisa que, agora, não temos. O bombardeio pós-moderno nos
impõe isso através do consumo. Contudo, Divertida Mente consegue estabelecer a
importância de cada um dos sentidos. Inclusive a tristeza. Um filme sobre
sentidos, sobre o fim da infância, apresentado de maneira sutil e divertida. O
mais ousado dos filmes da Pixar está altamente recomendado.★★★★★★★★★☆ – Nota: 9/10

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