Crítica: Casa Grande

 
 
 
Por Leonardo Carvalho
Direção: Felipe Barbosa
Elenco: Thales Cavalcanti,
Marcello Novaes, Suzana Pires, Clarissa Pinheiro.
Brasil – 2015
Imagem estática sobre uma mansão
belíssima. Todas as luzes estão acesas e, aos poucos, o espectador vai
enxergando o apagar delas. Nesse prólogo, em um ambiente silencioso e noturno,
o apagar das luzes é, de fato, não só uma ambientação de onde a história vai se
passar, mas um trabalho com o poético, uma metáfora de signo visual que remete
à escuridão ou às trevas.
Aos poucos, como se fosse um voyeur, o público observa os problemas
da família, além de observar as personalidades de cada personagem. A câmera
está, na maioria das vezes, próxima de Jean, o personagem protagonista, filho
de pais ricos, acostumado a ter tudo o que quer, a ser prestigiado. O roteiro,
porém, é tratado como uma gradação decrescente sobre a vida do personagem. Aos
poucos, vemos um Jean cada vez mais fraco, cada vez mais preocupado e
estressado. Aos poucos, vemos um Jean tendo que andar de ônibus, sem dinheiro
para ir à boates, ao contrário do que estava acostumado.
Seu pai estava perdendo dinheiro
num investimento que não deu certo, além de ter muitos gastos. A mãe era o
reflexo dos problemas financeiros, uma personagem preocupada, fraca e triste. A
irmã de Jean é uma adolescente revoltada por causa da pouca atenção que recebe
da sua família, sempre tentando chamar a atenção da família, mas só consegue
isso no final da história e acaba sendo importante na conclusão. Além disso,
mora com ele a empregada Rita, que Jean aproveita seus momentos de carência
para ir ao quarto dela, onde ambos contam as novidades do cotidiano. Severino,
o motorista, e Noemia, a outra empregada, completam os membros da casa
grande. Todo o elenco funciona com o estilo do filme, em geral, as atuações
são muito boas.
Severino é mandado embora logo no
início da obra devido à crise financeira que o pai de Jean passa. É
interessante observar que, no começo, há uma cena que enquadra Severino e
Noemia chegando à casa grande para trabalhar. Os dois ficam um do lado do outro
na imagem. Quando o motorista é demitido, o mesmo enquadramento se repete, mas
sem o homem na imagem, o que enriquece o trabalho da fotografia sobre a
narrativa. A fotografia por sinal, utiliza muito bem os planos, principalmente os
estáticos, mas deveria abusar um pouco mais no trabalho de iluminação sobe cada
momento das figuras na história.
Aos poucos Jean vai conhecendo o
choque de realidades e formando opinões, já que ele repete tudo o que seu pai
diz sobre assuntos como cotas e cursos de faculdade. Isso traz uma reflexão
muito grande para o espectador, principalmente quanto às cotas de universidade,
em que, em um primeiro momento, na escola em que Jean estuda, de classes altas
do Rio de Janeiro, há uma discussão sobre as cotas em que a professora se
posiciona a favor da reserva de vagas, assim como alguns alunos, enquanto
outros se posicionam contra.
Na volta do colégio para casa
conhece uma menina de classe mais baixa que a sua. Ela parece ser um refúgio
dentro daqueles problemas. Torna seu trajeto de ônibus de todos os dias mais
prazeroso, vai à praia com a menina e até ao forró, que dizia não ser o seu
estilo a Severino anteriormente. Em um churrasco na sua casa, Jean leva a
menina e, durante o almoço, há uma discussão enorme, ou melhor, uma briga,
sobre a reserva de vagas, com argumentos fortes da menina e com opiniões, um
pouco preconceituosas, do pai de Jean e de seus convidados. A briga durante o
churrasco é até curiosa devido à carga de reflexão, mas tecnicamente muito forçada
nas atuações e no próprio roteiro.
Há grandes pontos de virada na
obra. No clímax, o melhor das viradas, Jean vai à favela onde Severino mora com
o intuito de fugir dos seus pais, mais até do seu pai, depois de uma prova de
vestibular que mal conseguiu fazer. Lá, o espectador percebe o limite em que
Jean parou, saiu de uma mansão, num local rico, e parou num local pobre, onde
chegou sem rumo, carregado de mágoas. Ainda sobre o clímax, existe até um
suspense no final, em que Jean seria sequestrado, momento esse que sua irmã
finalmente consegue atenção ao sugerir aos pais de perguntarem a fisionomia de
Jean aos supostos seqüestradores, mas só consegue isso porque quebrou um
vaso de um móvel para chamar atenção.
O final aberto, reflexivo e ponto
máximo de uma gradação decrescente prova mais uma vez a qualidade da obra. Tem
um estilo parecido com “O Som ao Redor”, mas é tecnicamente inferior.
Deve ser o escolhido do Brasil para concorrer ao Oscar do próximo ano, que é
muito melhor do que a escolha do ano passado, mas ainda assim, “Casa
Grande” poderia ser melhor e trabalhar ainda mais o lado poético – com a
iluminação, por exemplo – para enriquecer ainda mais o conteúdo e a parte
técnica.
★★★★★★★★☆☆ – Nota: 8

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