Crítica | Blade Runner – O Caçador de Andróides

Por Philippe Leão
Direção: Ridley Scott
País: E.U.A
Elenco: Harrison Ford; Rutger Hauer; Sean Young; Edward James Olmos; M. Emmet Walsh; Daryl Hannah; William Sanderson; Brion James; Joe Turkell; Joanna Cassidy; James Hong; Morgan Paull.
Ridley Scott é um diretor estadunidense amplamente conhecido pelas diversas versões de seus filmes, cortados e reeditados ao longo do tempo. A característica demonstra a força dos produtores ao alterar suas histórias, levando aos cinemas uma versão diferenciada a que se tornaria a original anos mais tarde nos DVD’s. Aqui, trataremos do Final Cut, a versão do diretor presente na maioria das mídias em comercialização.
Blade Runner é uma das ficções científicas mais renomadas da história do cinema. O filme se passa em uma futurista e distópica Los Angeles em 2019, imersa em uma assombrosa paisagem onde as formas urbanas confundem-se de maneira anárquica: poluição, consumismo em massa simbolizado pelas grandes propagandas em prédios que cortam os céus ao tempo que carros voadores percorrem entre estes. A natureza da civilização encontra na evolução da técnica a decadência humana. Dessa forma, habitantes da terra são convidados a aventurarem-se a novos modelos de colonização interplanetária, uma fuga do mundo que estes construíram. Nessa sociedade, homens criaram androides, chamados Replicantes, que sentem, tem memórias implantadas, um espelho da natureza humana. A criação dos androides tinha como objetivo a utilização destes para atividades nocivas e escravidão. Após um motim, os replicantes passam a ser banidos da sociedade, sendo enviados para outro planeta. Esse ambiente, apesar de não estar presente visualmente no filme, norteia os acontecimentos narrativos. Assim, a película vai desenvolver-se a partir do ponto de vista de Deckard, um caçador de androides, que terá a missão de eliminar um grupo de replicantes que retornam a terra desobedecendo à ordem.
A narrativa do longa-metragem trabalha de maneira interessantíssima uma comparação do homem em relação ao replicante, o criador e a criatura. O homem envolve-se pela técnica que criou, mas que agora retira os resquícios de vida em sua plenitude, se tornam homens máquinas. Já os replicantes, criaturas do homem, com memórias implantadas, interessam-se por suas vidas a ponto de lutar por elas. A máquina ganha um valor simbólico em que sua natureza é mais humana que o humano.
A simbologia é, também, muito bem trabalhada aqui. Os replicantes são aficionados por fotografias, arte notadamente relacionada a memória. Apesar de implantadas, são reais para aqueles que a detém, mesmo que objetivamente nunca tenha acontecido. Sendo estas implantadas pelo homem, obviamente estes conhecem a mente do replicante, trazendo novas simbologias relacionadas ao mundo dos sonhos dos homens-máquina. Nada precisa ser falado, tudo é dito por imagens, símbolos, que constrói a narrativa em uma poesia devastadora.
A fotografia apresentada em uma razão de aspecto 2.35:1, ou seja, um widescreen revelador, que enche a tela, apresenta tudo que aquele mundo precisa mostrar. A atmosfera é escura, enriquecendo narrativamente uma vez que sua estética apresenta elementos passados, de uma fotografia noir onde as sombras delineiam a cena, para construir um cenário do futuro. É o arcaico construindo o novo, uma ironia da criação destrutiva ou destrutiva criação.
Por fim, Blade Runner é merecidamente enquadrado entre os maiores filmes de ficção científica de todos os tempos, marcado por críticas que vão desde o avanço desmedido da técnica à segregação de classes sociais e culturais. Uma heterogeneidade visual que demonstra uma caótica, porém, poética narrativa.

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