Crítica: Deus Branco

 
 
 
Por: Leonardo Carvalho
Filme: Deus Branco
Direção: Koenél Mundruczó
País: Hungria
Ano: 2014
Em
“Deus Branco” vemos a história de Lilly, uma jovem menina que é
apaixonada pelo seu cão Hagen e faz de tudo para ficar ao seu lado. Um dia sua
mãe viaja por um período de alguns meses e ela é obrigada a ficar na casa de
seu pai, que não mora com a menina e não aceita o cão, o abandonando no
desenvolvimento da obra.
A
narrativa, a partir disso, é dividida em duas partes. A primeira, a
continuidade da menina, que tem seus problemas com o pai, com a orquestra em que
toca, por exemplo. Em consequência disso, vai à festas, consome bebidas
alcóolicas, ocorre uma transformação em suas características. Já Hagen, começa
a aprender sobre as regras da rua. Como arranjar alimento, como se defender da
carrocinha e até como atravessar a rua. Pior do que a menina, o cachorro passa
por momentos piores e que chocam o espectador. Foi treinado para rinhas, o que
fez seu comportamento variar, de um cão calmo a um cão agressivo. É bom
destacar a cena da rinha, em que é muito bem dirigida através de cortes rápidos
que impressionam, trazendo um naturalismo enorme, assim como todo o filme.
É
um longa-metragem que lembra muito “Os Pássaros” de Hitchcock por
causa dos animais contra os humanos. Quando os cães se unem em determinadas
cenas para fazer um ataque, parecendo um exército, lembra o filme do mestre do
suspense, mas ao invés de aves, são mamíferos, conhecidos como o melhor amigo
do homem. Diferente do clássico, há uma explicação do motivo da revolta dos
animais, que são os maltratos feitos por seus donos e a população em
geral. Tudo isso nos faz pensar em quem é o melhor amigo: o cão é o melhor
amigo do homem e o homem é o melhor amigo do cão? Em muitos momentos da obra,
com exceção da menina protagonista, os cães são judiados e explorados o tempo
todo, o que nos traz a reflexão de que apenas os cães são os melhores amigos do
homem.
O
mais interessante de tudo é que, quando Hagen solta os outros cães dos canis,
um outro filme começa. E é bom enfatizar que Hagen consegue se soltar graças ao
seus treinos forçados para se tornar um cão de briga, ou seja, ele foi treinado
por um humano. Outro filme começa por um estilo de filmagem diferente. A trilha
musical deixa de ser triste e melancólica e passa a ser dinâmica e intensa.
Além disso, a fotografia ganha um peso enorme sobre o ambiente. A iluminação é
presa em poucos pontos da cena, o que torna os enquadramentos muito mais
escuros, isto é, sombrios. Fora que no contexto, o cão passa a ser o
superior.
O
filme mantém uma regularidade absurda em todos os momentos. Nas duas horas da
obra é possível encontrar um trabalho técnico impecável, com exceção de alguns
pequenos deslizes no roteiro, na parte de diálogos, como na cena em que Lilly
está em seu concerto e diz “Eles vieram por mim”, trazendo uma
sensação de fala forçada. Seria, de longe, melhor não utilizar o diálogo e a
menina ir direto à bicicleta. Mesmo assim, o restante dos diálogos não
leva nenhum problema, muito pelo ao contrário, compõe um roteiro curioso.
Com
um final formidável, em que os cães e os humanos voltam a ser equivalentes, e
com toda a regularidade dita anteriormente, “Deus Branco” é uma jóia
do cinema húngaro e um dos melhores filmes de 2014. Não podemos, é claro,
esquecer do grande trabalho de Luke e Body, ambos premiados com a palm dog.
Ambos são merecedores por fazerem parte de um trabalho ousado e brilhante.
★★★★★★★★☆☆ – Nota: 8

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