Crítica: Cria Corvos

 

Por: Philippe Leão

Direção: Carlos Saura

País: Espanha
Elenco: Geraldine Chaplin; Mónica Randall; Florinda Chico; Ana Torrent ; Héctor Alterio; Germán Cobos; Mirta Miller; Josefina Díaz; Conchita Pérez; Juan Sánchez Almendros; Mayte Sanchez
Dirigido por Carlos Saura, Cria Corvos é um filme espanhol que traz as lembranças de uma mulher já adulta da época em que era criança. Ao fazê-lo estabelece uma narrativa contada a partir da visão infantil, uma menina de apenas nove anos de idade. Assim, vemos Ana (Ana Torrent) lidando com a morte desde muito cedo, tendo perdido sua mãe, de quem recorda constantemente, e visto a morte de seu pai. Ao ficar órfã, ela e suas irmãs vão morar com a tia, rígida em seus preceitos morais.
Partindo desse argumento, vemos uma menina que revive de maneira física constantemente momentos difíceis de sua vida, principalmente tratando-se da debilitação psicológica da mãe, extremamente abalada pela infidelidade do marido. Carlos Saura conduz esses momentos de maneira que a narrativa torna-se fluida e densa ao mesmo tempo. Acontece que essas cenas não são constituídas com simples flashbacks, o modelo mais fácil de reconstruir memórias, vê-se uma relação quase fantasmagórica em que Ana faz parte da ação, os fantasmas do passado voltam a interagir entre si. Em alguns momentos, a menina deixa de ser mera observadora da ação e passa a agir nesta, momento em que percebemos a transição da memória, sendo desnecessária qualquer representação que nos remeta ao já falado flashback, a transição é linear.
O diretor consegue imprimir à narrativa o ritmo necessário a qualquer obra. Para isso, é possível perceber, em primeiro lugar, a utilização de uma montagem paralela, ou seja, alguns acontecimentos ocorrem ao mesmo tempo de outros, permitidos pelo corte. A diferença aqui, é que ambos os momentos dessa montagem são vivenciados pela personagem principal, trazendo justamente o misticismo, a proximidade com a morte. Outras técnicas narrativas são muito bem aplicadas aqui. Em uma cena bastante forte, intensificada pela ausência de trilha e aumento dos ruídos sonoros, a morte da mãe de Ana é mostrada, contudo, utilizando-se de uma elipse de conteúdo, a morte do pai não é mostrada, apenas o som do sofrimento, não tornando repetitiva a narrativa.
A composição fotográfica é expressa através de tons de marrom, capazes de incrementar a morbidez que o filme traz e, com constantes olhares diretos a câmera, parece que estamos constantemente sendo julgados pelos acontecimentos ou, pelo menos, adentrando nos olhares e percebendo com maior sinceridade o sofrimento, sem a necessidade barata do choro.
O uso do som é uma ferramenta importante no que se refere a implementação de sentido a película. Misturando a ausência e a presença do mesmo, o longa tem momentos que ganham densidade provocados pelos ruídos sonoros, ao passo que ao ouvir uma música teoricamente tranquila, boba (Porque te vas – Jeanette) cantada pela personagem principal olhando diretamente para nós, com luzes baixas, ganha uma aura completamente diferente e assustadora. (Sugiro que ouçam a música antes de assistir ao filme e percebam a alteração do sentido provocada pela técnica cinematográfica).
Cria Corvos é um filme que trata do amadurecimento infantil e a constante proximidade com a morte. Um filme necessário para aqueles que querem se considerar cinéfilos.

★★★★★

 

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