Crítica: Time

Por: Philippe Torres


Direção: Kim Ki-duk
Roteiro: Kim Ki-duk
Elenco: Hyeon-a Seong; Ji-heon Kim; Jo Seok-Hyeon; Jung- Woo Ha; Park Ji-Yeon; Sung-min Kim; Young-hwa Seo
Ano: 2006
País: Coréia do Sul
Time
O diretor sul-coreano, Kim Ki Duk, não tem pudor em criticar a ditadura da estética, tão presente na sociedade mundial que, contudo, ganha dimensões inimagináveis quando se trata de seu país, local onde mais de 20% das mulheres já se submeteram a cirurgias com este intuito, sendo a ocidentalização dos olhos uma das mais comuns, demonstrando a instauração de um ideal ocidental em detrimento ao oriental, uma guerra cultural no qual as revistas, a televisão, enfim, os meios midiáticos definem o vencedor. A busca por um padrão de beleza inexistente, construído midiaticamente, platônico, vem aumentando as estatísticas de vítimas.
Tudo começa quando, depois de dois anos de relacionamento, Seh-Hee (Park Ji-Yeon) começa a sentir-se insegura em seu relacionamento, pensa que seu namorado, Ji-Woo (Jung-Woo Ha), se interessa por outras mulheres, tendo assim, violentas crises de ciúmes. Intrigada com o suposto desinteresse de seu parceiro, a mulher chega ao ponto de pedir para que este pense em outra mulher enquanto relacionam-se sexualmente, não como um fetiche sexual, mas um caso psicanalítico digno da atenção de Freud. A paranoia de Seh-Hee, uma mulher linda, chega ao ponto em que decide fazer uma cirurgia para mudar de rosto, como se dessa forma ela pudesse novamente ter o interesse de seu namorado e, com outra identidade, reconquistá-lo. Ji-Woo começa então uma jornada para reencontrar sua namorada, mesmo descobrindo que esta mudou o rosto. O roteiro, de maneira bastante inteligente nos coloca em dúvida. Ao encontrar com diversas mulheres, questionamo-nos a todo instante: Será essa Seh-Hee? Serão todas ela?
O filme irá trabalhar de forma bastante sistemática e poética a representação das máscaras, uma maneira bastante inteligente de implementar tal crítica social. Como a troca de rosto pode alterar a essência do ser? Ao trocar de rosto, Seh-Hee realmente se tornará outra pessoa? Facilmente perceberemos que não, as aflições serão constantes, pertence à Seh-Hee, não a sua máscara.
Apesar de receber a alcunha de cineasta do silêncio, o filme em questão não carrega essa característica. Contudo, a poesia está tão presente quanto em seus grandes filmes, como: Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera, Casa Vazia e O Arco. Outras marcas do cinema de Kim Ki Duk são bastante marcantes aqui. Um cinema essencialmente ritualístico em que a ação se desenvolve de forma cíclica, repetindo diversos elementos e situações, dando a alguns espaços uma infinidade de significados simbólicos. Em especial, revivemos momentos em uma cafeteria e um parque de esculturas eróticas, compondo uma belíssima fotografia que, carregada de poesia, compõem as aflições e adjetiva os personagens. Dessa forma, é importantíssimo dizer que apesar de o silêncio completo não estar presente em Time, é ele que define a o filme como uma obra prima, dando-a sentido.
Há no cinema do diretor em questão um tom de fábula. Com isso, é importante ter em mente que assisti-lo de forma banal, ou seja, esperar eventos pertinentes a um realismo, não é a maneira mais recomendada de aprecia-lo. Com um roteiro cíclico, capaz de nos proporcionar belíssimas surpresas e uma forte crítica à sociedade do espetáculo, o filme foge do clichê brega e, sabendo disso, esqueça a tradução horrorosa que reverte todo o significado do filme, O Amor Contra a Passagem do Tempo, fique apenas com: Time.
★★★★★★★★★★ – Nota: 10

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *