Persona e as Máscaras de um Filme

Por Philippe Leão

 

Filme: Persona

Ano: 1966

País: Suécia

Direção: Ingmar Bergman

Elenco: Liv Ullmann; Bibi Andersson; Gunnar Björnstrand; Jörgen Lindström; Margaretha Krook

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Persona (2)

 

Após o surgimento de Hollywood, entrou na pauta dos grandes cineastas da década de 20 a necessidade de representar o real, diferente do que apresentava a vertente americana, fantasiosa. Ao mesmo tempo em que o tema entra em pauta, consequentemente a ambiguidade da crítica aparece. É visível que as características Hollywoodianas estão intencionadas a romantizar, camuflar os sentidos reais. Mas será possível para o cinema representar o verdadeiro real? Será o cinema soviético, expressionista, impressionista, o cinema japonês de Ozu ou dinamarquês de Carl Theodor Dryer capaz de mostrar as verdades do real em oposição as mentiras de Hollywood? Ingmar Bergman discute o tema em um dos seus maiores clássicos, Persona. O filme trata das complexas máscaras que o ser humano usa, a ponto de não reconhecer-se. Alma, enfermeira, é destinada a acompanhar Elizabeth Vogler, uma atriz do qual a saúde encontra-se em perfeito estado, mas recusa-se a falar. O filme parece revelar-se de forma monologa, a não ser pelo fato da personagem interpretada por Liv Ullman, Elizabeth Vogler, parecer fazer parte do diálogo. As máscaras começam a construir-se. De um lado uma atriz, a persona profissional, de outro a enfermeira. A primeira questão que o filme apresenta: Será possível viver uma vida sem representar? Sem apresentar-se como máscaras? O humano mente constantemente, e nem mesmo sabe o porquê, contudo isso não pode ser considerado um falseamento do indivíduo, o ser é composto por inúmeras máscaras. Persona, máscaras do teatro grego, tinham como característica o vão na altura da boca que permitia que o ator falasse, podemos então fazer uma desconstrução do que muito se propaga: as máscaras não falseiam, não apresentam uma mentira, demostram outro lado do ser, ao cobrir o rosto do ator, a máscara permite a propagação da voz, do som (Per-sona) ao ocultar o ator a máscara apresenta o dizer, ao ocultar, revela. Pensando no filme, além das máscaras individuais temos a miscelânea entre as personagens, Elizabeth Vogler, a atriz que não fala, trabalha como uma Persona de Alma, a máscara silenciosa que permite o dizer à Alma, ocultando sua face anterior, fazendo com que seus segredos mais profundos apareçam. É possível perceber claramente essa característica em Alma, que parece nunca ter sido ouvida antes da chegada de sua Persona. Até que as máscaras se incorporam em uma única. De fato reflexivo. Mas a película de Ingmar Bergman não apresenta as máscaras apenas nas personagens. A narrativa é desconstruída como uma máscara, no início uma sequencia de imagens justapostas, na metade o rolo do filme é queimado interrompendo a história que fluía de forma tradicional e propositalmente naturalista, e termina como se uma câmera estivesse filmando tudo que havia acontecido ou até mesmo no momento em que a personagem de Liv Ullmann bate uma fotografia do espectador (Veja na imagem), o espetáculo das máscaras humanas cotidianas. Dessa forma, Ingmar Bergman nos traz um roteiro repleto de diálogos (monologais) ácidos, fortes e inesquecíveis em uma fotografia que complementa a narrativa das máscaras do filme ( é possível perceber as sombras que constantemente formam-se no rosto das atrizes). As atuações de Liv Ullmann e Bibi Andersson, lendas da dramaturgia cinematográfica, são angustiantemente perfeitas. Por fim, como já dito, Ingmar Bergman nos entrega uma história que nos prende a todo o momento, impedindo-nos de esquecer-se das máscaras, não somente nas personagens, mas também a do filme, o que nos faz lembrar no início, no meio e no fim, a principal máscara que o cinema tentou e tenta esconder com frequência. Isso é apenas um filme, porém, é real.

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